ABQ - Academia Brasileira da Qualidade

A Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, tendo como membros participantes pessoas experientes e de reconhecida competência profissional adquirida ao longo dos anos – nas universidades, nas empresas e em outras organizações privadas ou públicas – em atividades relacionadas à engenharia da qualidade, à gestão da qualidade e à excelência na gestão. A administração da ABQ é realizada por um colegiado eleito entre os membros, de acordo com seu Estatuto.

Publicado em: 09/06/2017
Contribuições acadêmicas para a Qualidade
Foi sugerido no âmbito da ABQ – Academia Brasileira da Qualidade que se explorasse este tema

 

 

Foi sugerido no âmbito da ABQ – Academia Brasileira da Qualidade que se explorasse este tema, possivelmente como forma de se verificar se essa interação está ocorrendo de maneira profícua ou não em nosso país.

Ora, é bastante reconhecido o fato de que, ao invés do que ocorre nos países ditos de primeiro mundo, há nos do terceiro, o nosso aí incluído, um quase abismo entre os trabalhos realizados no meio universitário e as pesquisas feitas nas empresas visando a melhoria de qualidade de produtos, serviços e processos. Assim, tem-se, de um lado, os pesquisadores acadêmicos produzindo artigos mais teóricos que aplicados, com o intuito de publicá-los em periódicos ou congressos para melhorar a pontuação pessoal e de seus programas junto aos órgãos de avaliação educacional, e, do outro lado, pesquisas aplicadas buscando o surgimento de inovações tecnológicas capazes de valorizar os produtos, serviços e processos empresariais, aumentado, dessa forma, a competitividade dessas empresas.

O papel dos centros de pesquisa, tão comum em nações desenvolvidas, fazendo a ponte entre os conhecimentos científicos e técnicos gerados nas pesquisas das instituições de ensino e as necessidades práticas das empresas que competem no universo extrauniversitário, é muito pouco encontrado em países como o Brasil. Pelo contrário, a globalização, que teve, em países como o nosso, o efeito perverso de concentrar o comando das atividades industriais nas mãos de empresas multinacionais, atuou no sentido de minimizar as pesquisas feitas na terra e priorizar aquelas vindas das matrizes no exterior, gerando inclusive a transferência de capitais do mais pobre para o mais rico, sob a forma de pagamento de royalties, além das inevitáveis remessas de lucros ao exterior. Centros de pesquisa de grande competência, que existiram no Brasil em empresas como Metal Leve, Cofap e outras, tiveram suas atividades extintas no país e hoje são realizadas exclusivamente no exterior.

Neste cenário, torna-se, pois, complicado elaborar sobre o tema deste artigo, até porque a ponte que seria viabilizada pelos institutos de pesquisa, conforme visto, foi minimizada. Entretanto, instituições como a Academia Brasileira de Qualidade – ABQ, Fundação Nacional da Qualidade – FNQ, Movimento Brasil Competitivo – MBC, Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, e muitos outros, podem e devem, de certa forma, minimizar essa lacuna de relacionamento entre os que pensar qualidade, produtividade, inovação e competitividade e aqueles que, na prática empresarial, desejam que esses conhecimentos sejam difundidos e aplicados para o sucesso dos seus negócios e, por consequência, o desenvolvimento e a projeção do País no cenário internacional.

No meio universitário, têm proliferado em grande escala no Brasil os cursos de graduação e pós-graduação em Engenharia de Produção. Segundo dados da Abepro – Associação Brasileira de Engenharia de Produção, há hoje no Brasil 845 cursos de graduação em funcionamento.

Quanto à pós graduação, são 70 os cursos em atividade, distribuídos conforme mostrado no Quadro 1.

Quadro 1: Distribuição dos cursos de pós-graduação em Engenharia de Produção por estados brasileiros

Estado

Mestrado Acadêmico

Mestrado profissional

Doutorado

São Paulo

10

3

7

Rio de Janeiro

8

4

6

Paraná

6

2

-

Rio Grande do Sul

4

1

2

Minas Gerais

2

2

-

Pernambuco

2

1

1

Bahia

1

1

1

Santa Catarina

1

1

1

Rio Grande do Norte

1

-

-

Paraíba

1

-

-

Amazonas

-

-

1

TOTAL

36

15

19

Fonte: SNPG/Portal CAPES

Data Atualização: 23/02/2016

Nesses programas, em especial nos de pós-graduação, assuntos relativos à qualidade e conceitos correlatos têm crescido em interesse, levando ao surgimento das dissertações de mestrado e teses de doutorado referentes ao assunto. Vários artigos escritos para apresentação em congressos e/ou publicação em periódicos especializados também têm sido produzidos.

Merecem também citação iniciativas como o Fórum de Inovação da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, que tem realizado sistemáticas sessões para apresentar e discutir questões ligadas ao assunto e recentemente lançou, em parceria com a FNQ, o interessante livro Gestão da Inovação, coordenada pelo Prof. Dr. Marcos Vasconcellos (FNQ, 2015); a existência da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento – SBGC, que tem congregado os interessados nessa atualíssima questão envolvendo o hoje considerado o principal ativo das organizações, promovendo cursos e seminários a respeito.

A propósito, a questão da Gestão do Conhecimento – GC tem sido de interesse deste que lhes escreve, tendo sido discutida em aula com seus alunos. A Figura 1, que procura apresentar um panorama geral da realização dos propósitos da GC na prática, foi resultado dessas discussões.

O autor deste artigo, presentemente militando como professor titular do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Paulista – PPGEP, tem tido a oportunidade de orientar diversos trabalhos de mestrado e doutorado envolvendo questões ligadas à qualidade e seus desdobramentos. Entretanto, até que ponto o resultado desses esforços se propaga além dos muros das universidades e de seus bancos de teses, é uma incógnita cujo real valor, entretanto, não é difícil de prever e não parece animador.

 

Figura 1– Modelo para a Gestão do Conhecimento

Fonte: Costa Neto e Canuto (2010)

 

 

Evidentemente, o que se produz no ambiente de pesquisa de uma universidade ou de outras instituições afins necessita ver concretizar a sua adaptação e utilização na realidade pratica, para deixar de ser meramente um novo conhecimento que exista por si só. Esta verdade é claramente visível quando se considera o conceito de inovação, cuja consolidação como tal precisa ser chancelada pela sua utilidade na prática, ou seja, aportando agregação de valor. A Figura 2, que é apresentada sem comentários, mostra o processo de consolidação de uma inovação em suas várias etapas.

 

  

 

Figura 2: Processo sustentável de inovação tecnológica baseada em tecnologia.

Fonte: Costa Neto e Canuto (2010)

 

A pesquisa acadêmica costuma ser mais profícua quando investiga pontos não totalmente cobertos pela literatura existente ou intersecções entre setores do conhecimento. Um exemplo do primeiro caso citado refere-se às dimensões da qualidade consagradas por renomados autores. De fato, David Garvin, em celebrado artigo até hoje objeto de utilização na prática (GARVIN, 1984), estabeleceu oito dimensões para a qualidade de produtos. Pouco após, analisando a qualidade dos serviços, Parasuraman, Zeithaml e Berry (1990) propuseram dez dimensões para a qualidade dos serviços as quais, entretanto, dizem claramente respeito à qualidade da prestação desses serviços. Assim sendo, discutiu-se no âmbito das atividades acadêmicas do PPGEP a questão de qualidade dos produtos desses serviços, que podem ser tangíveis oi intangíveis, resultado ainda nas considerações preliminares, sujeitas a ampla discussão, apresentadas em Costa Neto, Costabile e Romano (2013). Outra discussão surgida nas salas de aula que pode ter interesse refere-se à questão da qualidade dos projetos, apresentada em Botelho, Costa Neto e Vendrametto (2012).

Outra interessante formulação que o autor deste artigo teve a oportunidade de conceber, com base em discussão com seus alunos de pós-graduação, refere-se à problemática envolvendo conhecimento, competência, sabedoria e decisões, cujo resultado é apresentado na Figura 3. Para um melhor entendimento dessa propositura, sugere-se a discussão apresentada na obra de referência. 

 

Figura 3: Conhecimento e sabedoria no processo de decisão

Fonte: Costa Neto e Canuto (2010)

 

São interessantes também as pesquisas das quais este professor universitário teve oportunidade de participar no PPGEP envolvendo os relacionamentos da Qualidade com aspectos tais como Responsabilidade Social, Sustentabilidade, Ética, Legislação e Qualidade de Vida, está meta a ser idealmente perseguida pelos cultores da Qualidade. Um razoável relacionamento entre esses conceitos é dado na Figura 3, cuja interpretação é deixada à análise dos leitores. 

 

 

Figura 4: Relacionamento entre conceitos

Fonte: Sacomano e Costa Neto (2012) 

 

Note-se, na Figura 4, a presença indissociável da Sustentabilidade, entendida, no mínimo, como representada pelo tripé econômica, social e ambiental, já consagradamente referenciado como “triple bottom line”, conforme cunhado por Elkington (2001). Sacomano (2016), entretanto, em sua tese de doutorado “Produção Sustentável: a Empresa entre o Direito e os Interesses“, mostra que, como seria de se esperar, pois a importância da busca pela sustentabilidade somente passou a ser evidenciada mais adiante no tempo, a Constituição Brasileira de 1988 ignora esse conceito, embora expresse claramente, em seu Artigo 225, uma forte preocupação com o meio ambiente, com citações explícitas à proteção da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica, do Serrado, do Pantanal Mato-Groscense e da Zona Costeira. Sobre o assunto, foi estabelecida neste trabalho uma interessante comparação entre a hierarquia das necessidades propostas por Abraham Harold Maslow (Maslow, 2000), recordada na Figura 5, e uma hierarquia de ações visando a efetivação do desenvolvimento sustentável, conforme ilustrado na Figura 6. 

 

 

Figura 5: Pirâmide das necessidades de Maslow

Fonte: Maslow (2000)

  

 


Figura 6: Hierarquia de sustentabilidade

Fonte: Sacomano (2016) 

 

 

(*) Qualidade de vida com realização dos ideais de cada cultura, religião e sociedade

(**) Conscientização geral da importância da condição obtida, inibidora da possibilidade de retrocesso

Acredita-se que possa ficar claro ao leitor, guardadas as devidas proporções, a validade da analogia entre as duas representações hierárquicas.

Finaliza-se este artigo com a apresentação de discussão que Morais e Costa Neto (2016) propuseram à comunidade de pesquisa a respeito da oportunidade e valor das inovações. Nessa discussão, emergiu a Figura 7, sem dúvida de natureza semelhante à da Figura 4 já apresentada. 

 

 Figura 7: Relacionamentos envolvendo a inovação

 

As inovações, indiscutivelmente, constituem o motor do desenvolvimento de humanidade. Esse é um truísmo fora de discussão. Entretanto, mormente nos tempos atuais, o exponencial surgimento e disseminação das inovações leva a um possível questionamento e respeito.

De fato, a Figura 8 busca ilustrar, em diversos setores, possíveis consequências positivas e negativas do surgimento das inovações. Estas considerações levaram os seus autores a propor uma medida para a qualidade da inovação, a ser avaliada por um índice QDI variando entre -1 e +1, obedecendo a dois axiomas:

− O valor de QDI é função do tempo de utilização de inovação

− O valor temporal de QDI depende do planejamento a longo prazo de sua utilização

Essa propositura está sendo discutida pelos autores em trabalho de elaboração de tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Produção da UNIP, mas está em aberto como desafio à inteligência dos demais pesquisadores.

Espera-se, com a elaboração deste artigo, haver ao menos trazido elementos para a discussão da problemática embutida no título que lhe foi conferido.

 

 

Figura 8: Possíveis consequências das inovações

Fonte: Morais e Costa Neto (2016) 

 

  

Referências:

BOTELHO, W. C., COSTA NETO, P. L. O., VENDRAMETTO, O. Considerations on Project Quality, XVIII ICIEOM 2012 – International Conference on Industrial Engineering and Operations Management Guimarães, Portugal, Volume: Sustainability pag. ID47.1 a ID47.10- ISBN 9788588478435.

COSTA NETO, P. L. O. e CANUTO, S. A. – Administração com Qualidade. São Paulo: Blucher, 2010

COSTA NETO, P. L. O.; COSTABILE, L.T., ROMANO, S. M. V. A qualidade dos produtos das redes de serviços – I SIMREDES – Simpósio de Redes de Suprimentos e Logística, Universidade Federal da Grande Dourados, MS, 11 a 13/11/2013.

ELKINGTON, John – Canibais com garfo e faca. São Paulo: Makron Books, 2001, p. 488

GARVIN, D. A. – What does “Products Quality” realy mean. Cambridge, USA: Sloan Management Review, Fall 1984.

MORAIS, M. O. e COSTA NETO, P. L. O. Innovation and Quality. APMS 2016 – International Conference Advances in Production Management System, 03-07/09/2016. Foz do Iguaçu , PR, Brazil, 2016

PARASURAMAN, A.; ZEITHAML, V. A., BERRY, L. L. Delivery Service Quality: balancing customer perceptions and expectations. New York: Free Press, 1990.

SACOMANO, A. R. e COSTA NETO, P. L. O. The importance of Brazilian Legislation for the improvement of Quality of Life. APMS 2012 International Conference Advances in Production Management Systems, Rhodes-Grecia, 2012.

SACOMANO, A. R. Produção Sustentável: A empresa entre o Direito e os Interesses. Tese de Doutorado. Universidade Paulista; Programa de Pós Graduação em Engenharia de Produção: São Paulo, 2016. 

 

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