ABQ - Academia Brasileira da Qualidade

A Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, tendo como membros participantes pessoas experientes e de reconhecida competência profissional adquirida ao longo dos anos – nas universidades, nas empresas e em outras organizações privadas ou públicas – em atividades relacionadas à engenharia da qualidade, à gestão da qualidade e à excelência na gestão. A administração da ABQ é realizada por um colegiado eleito entre os membros, de acordo com seu Estatuto.

Publicado em: 10/07/2020
Recuperação do Brasil Pós COVID-19
É difícil antever com precisão seus efeitos e consequências

 

 

Acadêmico Claudius D’Artagnan C. Barros (www.youtube.com.br/DartaBarros)

É executivo da Propar® Empresarial. Consultor organizacional há 45 anos, possui especialização em Gestão da Qualidade pela J.U.S.E (Japanese Union of Scientists and Engineers). É Professor Universitário e também autor de diversos livros nas áreas da Qualidade, Serviços ao Cliente, Gestão Participativa, Empreendedorismo e Liderança. É membro vogal da Academia de Letras de Lorena/SP, onde ocupa a cadeira #20 e foi Vice-Presidente da ABQ na gestão 2016/18. Mentor do Projeto Egecon® - Educação Gerencial Continuada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acompanhe a entrevista realizada no inicio de julho, a distância.

 

Como você percebe os impactos e consequências da COVID-19?

Quanto aos impactos, são claramente perceptíveis. Quanto às consequências desta pandemia singular e sem precedentes na forma como foi enfrentada, só o tempo dirá. É difícil antever com precisão seus efeitos e consequências sobre a sociedade, particularmente sobre os negócios. Conforme afirmou o businessman americano de ascendência egípcia, Mahomed El-Erian (economista chefe da multinacional financeira Allianz SE):

 

“...as consequências do Covid 19 não serão iguais às que já conhecemos de outras tragédias mundiais, essas, com repercussões cíclicas e previsíveis. Neste novo-normal conviveremos com rupturas estruturais e novos modelos disruptivos”.

 

Prova disso, é que todas previsões divulgadas entre o final de 2019 e início de 2020 por entidades de notoriedade mundial, como o FMI, Banco Mundial, OMC, OCDE, ONU e tantas outras, se tornaram vazias. Volto a dizer, o cenário terá de ser reconstruído, pois o contexto mudou. Enfim, um novo design de governança corporativa e uma acentuada mudança de comportamento das empresas perante seus clientes e colaboradores é a única certeza que temos. É hora, portanto, de medir a resiliência e capacidade de se reinventar. A necessidade é a mãe da inovação!

 

O que fazer no curto prazo, afora as medidas já tomadas, para atenuar o impacto econômico, empresarial e social?

Algumas medidas administrativas vêm sendo tomadas e tem amenizado (mesmo ainda aquém da necessidade) os efeitos da pandemia do COVID-19 em relação aos impactos econômicos/financeiros de curto prazo. Dentre as principais medidas, podemos citar a prorrogação (ou adiamento) de tributos: a MP 936 (Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e Renda) e a liberação de crédito para as MPE’s (Micro e Pequenas Empresas). O problema é a dificuldade de acesso a essas linhas de crédito. Conforme Pesquisa Sebrae, a cada sete pequenos-empresários postulantes ao crédito, apenas um consegue obtê-lo. Há uma expectativa de melhora nesta concessão de crédito através do Pronampe, um Programa criado recentemente e que deverá atender a 4,5 milhões de Micro e Pequenas Empresas com valores que vão até 30% do faturamento anual dessas empresas.

 

De qualquer forma é improvável que os modelos de negócio retornem aos patamares do pré-COVID-19. Há uma perspectiva otimista de aceleração de algumas tendências, principalmente na substituição dos serviços presenciais administrativos para regimes digitais, utilizando homeoffice, tele trabalho, reuniões remotas, treinamentos online, etc. Algumas empresas já iniciaram experiências de modelo híbrido flexibilizado como forma de transição, mantendo seus colaboradores três dias em casa em regime de homeoffice, e dois dias em regime presencial na empresa. Entretanto, ainda há incertezas quanto ao ordenamento jurídico envolvendo essas medidas, sem falar nos problemas de falta de conectividade e eficácia das plataformas digitais. Contudo, é bem provável que os custos de operação nas empresas sejam reduzidos e já se comenta que haverá aumento nos índices de produtividade, o que ainda não está comprovado.

 

No ambiente social estamos presenciando situações preocupantes, principalmente em relação aos problemas psicoemocionais e de relacionamento resultantes do isolamento e do distanciamento social a que a sociedade foi submetida. Destaco a desinformação como o elemento mais nocivo atualmente para a sociedade. Frente a toda essa contextualização, resta-nos no curto prazo, buscar serenidade e informações fidedignas para a tomada de decisão, seja no âmbito profissional ou social. É preciso também procurar gerir a rotina de forma consciente, com bom senso, aproveitando – como ensinam os japoneses – as oportunidades que emergem da crise, na esperança de que tudo isso possa ser superado num futuro breve.

 

Como a qualidade e a gestão podem ajudar para saída da crise?

Qualidade e Gestão são modos simbióticos. É difícil imaginar a Qualidade desassociada da Gestão e vice-versa. Os dois métodos colocados em prática são de providencial ajuda neste momento obtuso pelo qual as empresas estão passando. E justamente nesse momento crítico a ABQ pode ser de grande ajuda ao mobilizar-se no cumprimento de sua Missão precípua (Cap.1º Art. 2º Estatuto ABQ):

 

“contribuir para o desenvolvimento do conhecimento em engenharia da qualidade, em gestão da qualidade e da inovação e em excelência da gestão, para benefício das organizações e da sociedade brasileira”.

 

A disseminação da qualidade e dos modelos de excelência de gestão deve contribuir de forma significativa, principalmente às instituições mais carentes desta informação, como os microempresários e empresas de pequeno porte. Outra contribuição relevante da Academia para amenizar este momento singular por que passamos é o Guia Prático de Gestão, de autoria do nosso querido colega Jairo Martins da Silva, cuja publicação está disponível no site da ABQ. As lições sobre Governança, Qualidade e Modelos de Gestão para empresas são apresentadas de forma clara, objetiva e didática. Vale a pena conferir.

 

Sempre dizemos que o Brasil é o país do futuro: Isso pode acontecer algum dia? Quando? Como será possível?

Esta é uma pergunta, no mínimo, desafiadora. Nosso país é abençoado não apenas por sua vastidão e riqueza territorial, mas também por sua diversidade étnica e cultural. Amabilidade, hospitalidade e simpatia são características marcantes do nosso povo. Ainda assim, nossas gerações até aqui não conseguiram erigir a nação próspera que tanto almejamos. A verdade é que nunca valorizamos devidamente a nossa cultura, nem nos preocupamos com a qualidade de nossa educação. Some-se a isso o desleixo para com a nossa história e a escassa visão patriótica. Precisamos nos engajar nessa luta pelo Brasil em direção a um futuro mais promissor. Atualmente, experimentamos as mazelas de uma sociedade que passa por uma corrosão institucional fruto de décadas de infiltração ideológica e ação revolucionária.

 

Cabe ressaltar que, paradoxalmente, uma das obras mais interessantes sobre o “Brasil do Futuro” foi publicada em 1941 pelo escritor, romancista e poeta austríaco Stefan Zweig (1881/1942), refugiado na cidade de Petrópolis/RJ durante o período da 2ª Grande Guerra. Foi a partir desta obra de Zweig que passamos a ostentar este icônico apelido de “país do futuro”. Não obstante, eu como um otimista de nascença tenho fé que superaremos as dificuldades e nos tornaremos um país melhor; quem sabe impulsionados por nossas características de origem, ou mesmo por nossa qualidade criativa para improvisar soluções diante dos mais variados e inusitados problemas, segundo o que carinhosamente chamamos de “jeitinho brasileiro”.

 

Que conselhos você daria a um jovem que está trabalhando e passa a viver esta situação de crise?

O mundo passa atualmente por uma enorme transição. Os jovens que se preparam para ingressar no mundo dos negócios e os neófitos no mercado de trabalho, precisam ser ousados no enfrentamento das rápidas e inesperadas mudanças que atingem a sociedade. Tal qual dizia o filósofo Heráclito (535 a.C.): “...a única certeza permanente que temos... é a mudança! ”

 

Gerenciar mudanças tem sido um dos maiores desafios deste século. Como vamos nos preparar para o porvir? Como será o novo cenário que nos aguarda? Enfim, como lidar com tamanha incerteza e com tantas perguntas sem resposta?

Meu conselho é que o jovem descubra suas aptidões e talentos e trate de aproveitá-los, transformando-os num próspero negócio. Essa pode ser uma ótima oportunidade para uma atuação efetiva e sustentável no mercado de trabalho como um empreendedor de sucesso. Gaste tempo refletindo sobre isso.

 

Estude muito e continuamente. Busque incessantemente o conhecimento, não apenas na sua área profissional, mas de uma forma mais ampla e holística, buscando relacionar e conectar áreas do saber aparentemente díspares. Eis o que realmente pode garantir um diferencial de posicionamento no mercado. Lembrando de que o conhecimento é o ouro do nosso tempo.

 

 

 


 

 

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