ABQ - Academia Brasileira da Qualidade

A Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, tendo como membros participantes pessoas experientes e de reconhecida competência profissional adquirida ao longo dos anos – nas universidades, nas empresas e em outras organizações privadas ou públicas – em atividades relacionadas à engenharia da qualidade, à gestão da qualidade e à excelência na gestão. A administração da ABQ é realizada por um colegiado eleito entre os membros, de acordo com seu Estatuto.

Publicado em: 17/07/2020
Recuperação do Brasil Pós COVID-19
Saúde e economia estão no primeiro grupo e não há muito o que acrescentar ao que já foi dito

 

 

Acadêmico Edson Pacheco Paladini é Professor Titular do Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutorado em Engenharia de Produção (UFSC, 1992). Atuação nas áreas de Engenharia, Gestão e Avaliação da Qualidade.  Autor de diversos livros sobre temas inseridos em suas áreas de atuação e de artigos técnicos publicados em periódicos qualificados no país e no exterior.

Acompanhe a entrevista realizada a distancia na primeira semana de julho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como você percebe os impactos e consequências da COVID-19?

Acho que há dois grupos de impactos (e respectivas decorrências) da COVID-19: os evidentes e os sutis. Saúde e economia estão no primeiro grupo e não há muito o que acrescentar a tudo aquilo que já foi dito. O segundo grupo desdobra-se em resultantes duradouras e implicações ocasionais.

 

É difícil prever efeitos perenes, por razões compreensíveis. Fazer previsões de longo prazo traz sempre o conforto inerente à dificuldade de verificar a validade delas. Mas para um momento de extrema transição e volatilidade, a tentação de fazer este tipo de prenúncio é irresistível. E, claro, este exercício depende de percepção pessoal.

 

Eu cravo como alteração permanente a revolução digital. E até muito mais do que isso: na verdade, a pandemia vai consolidar a tendência da competência digital. Apenas organizações que detém plataformas realmente eficazes sobreviverão, independentemente do porte delas. Todos (todos, sem exceção) os setores da economia formal (e até informal) vão ter que investir em modelos digitais de negócios. O comércio e agronegócio poderão ser os setores onde o impacto do desenvolvimento tecnológico será mais sentido. A telemedicina vai se estabilizar de forma definitiva. A onda atingirá também, com furor e determinação, os microempresários individuais. Serviços públicos vão também apostar no atendimento à distância e ampliar interações como uso de recursos tecnológicos. Pessoas também sentirão esta mutação. Todas as profissões vão precisar das novas tecnologias para se consolidarem (o que implica atualização constante). No meio do caminho, universidades vão ter que encarar esta nova realidade e alterarem não apenas os conteúdos ministrados, mas principalmente, os métodos de ensino, já que utilizar tais métodos é parte crítica do preparo de futuros profissionais. Nunca mais ouviremos falar em uma figura conhecida como ex-aluno (seremos eternos aprendizes). Além da educação on-line, reuniões à distância serão mantidas. Ou seja: ampliaremos as interações, ainda que os atores do processo estejam fisicamente distantes.

 

Já as repercussões que podem ser fugazes compõem uma lista longa e talvez comece com demonstrações de solidariedade; atenção e reconhecimento aos motoboys e aos profissionais da saúde; relógios com o andar mais pausado; reuniões com família; atenção a fenômenos e práticas incrivelmente usuais e que agora despertam atenção – como o nascer do sol e a arte de cozinhar; menos poluição; mais silêncio e menos ruído; pessoas mais calmas, mais lentas, mais atentas e mais sensíveis.

 

Há, ainda, situações intermediárias – como a ênfase à higiene; maior atenção ao mundo microscópico; incentivo à universalização das medidas de saneamento; cidades com características mais humanas. É bem possível que estas posições migrem para posturas permanentes. Mas não há garantias.

 

O que fazer no curto prazo, afora as medidas já tomadas, para atenuar o impacto econômico, empresarial e social?

As soluções mais ou menos óbvias já discutidas em diferentes contextos (tipo redes sociais, sites ou imprensa convencional) parecem corretas. Minha visão: em primeiro lugar, pessoas e organizações economicamente ativas terão que rever o foco de sua atuação. Um termo que tem sido muito usado para expressar esta nova situação é “reinventar-se”. Parece adequado. Não podemos pensar que a demanda apenas tornou-se menor. Este é uma conduta muito simplista. É preciso entender que a demanda sofreu radicais alterações. Vale dizer: os valores que norteiam os padrões de consumo mudaram rapidamente e isto não se deve (apenas) à queda do poder aquisitivo. Os referenciais mais relevantes das pessoas sofreram radical transformação. O simples fato de que esta crise existiu deixa no ar a sensação de que outras poderão vir. O conceito de aquisição consciente vai dominar e a relação entre custo e benefício terá papel determinante na decisão de compra. A relação entre oferta e procura terá a empatia como regra fundamental. Nenhuma empresa sobreviverá se não exercer um processo de sintonia muito fina, aguçada, atenta e vigilante em relação a seus clientes. Desenvolver este processo não é ação de curto prazo: é ação para agora. Um semestre de pandemia é tempo mais do que suficiente para radical alteração de comportamentos, hábitos e referenciais. Claro que esta transição exige planejamento; pleno conhecimento e profunda compreensão do mercado; permanente análise de tendências; completa reestruturação da cadeia de suprimentos entre outras tantas ações que configuram um modelo de gestão empresarial caracterizado pela flexibilidade e foco no consumidor. E aí aparece uma constatação que parece surpreendente, mas não tem nada de inusitado ou imprevisível: Não são esses os fundamentos da Indústria 4.0?

 

Como a qualidade e a gestão podem ajudar para saída da crise?

Como se estivesse com a tormenta aparecendo em seus radares, em passado relativamente recente a qualidade se redefiniu. Saiu dos conceitos tradicionais, como adequação ao uso, para uma concepção baseada em escolhas. Qualidade hoje é definida como o conjunto de opções que organizações produtivas, instituições governamentais ou mesmo pessoas selecionam para criar uma forma específica de estruturar processos de relacionamento com os mercados e, mais em geral, com a sociedade. Esta caracterização da qualidade trouxe uma alteração substancial nos modelos de gestão, que passaram a ter um novo referencial: o que determina a ação estratégica das organizações não é mais a visão da empresa, mas, sim, o foco do negócio. Ou seja: o verbo “vender” foi substituído pelo verbo “comprar”, com a consequente mudança no sujeito da frase: o agente da ação é o consumidor, não o produtor ou a loja. Assim, posições consagradas anteriormente, como cortar custos, por exemplo, foram substituídas por investir em novas tecnologias que facilitem a interação com os mercados e, mais em geral, com o ambiente social. Acredito que esta mudança no padrão de atuação (que começou antes da pandemia) agora, mais que nunca, é um caminho seguro para enfrentar os novos tempos. A Gestão da Qualidade no Processo vai guiar decisões práticas que podem ter ganhos marginais significativos para empresas. Por exemplo: se a interação com os consumidores se dá mais no ambiente virtual, espaços físicos amplos (como no caso de lojas ou shoppings) serão substituídos por ambientes menores e mais simples. Já a gestão de estoques, pela mesma razão, utilizará novos conceitos. O clássico “just in time” pode desaparecer, cedendo lugar a maiores estoques de segurança para garantir maior rapidez de atendimento, algo que alguns profissionais da área de qualidade passaram a chamar de “just in case”. A troca da “atenção para a empresa” pela “ênfase ao negócio” pode ser o primeiro passo para fixar uma saída segura da crise.

 

Sempre dizemos que o Brasil é o país do futuro: Isso pode acontecer algum dia? Quando? Como será possível?

As características naturais do Brasil; a geração de matérias-primas fundamentais; a diversidade de bens tangíveis e serviços disponibilizados; o crescimento notável do setor de inovação tecnológica; a robusta produção de alimentos; o processo de qualificação dos recursos humanos em todas as áreas são alguns dos itens que contribuem para que nosso país tenha posição estratégico no mundo. Esta já é uma situação sólida hoje e a tendência é estabilizar-se de forma rápida e robusta. Além destas particularidades, o país pode beneficiar-se de mudanças globais que a pandemia gerou, como no caso da crescente propensão de substituir a aquisição de matérias-primas importadas (da China, por exemplo) por insumos localmente produzidos.

 

Entretanto, estas características potencialmente fantásticas não disfarçam, nem escondem e nem reduzem elementos que nos afligem, como os níveis elevados de pobreza em grande parte da população; dificuldades em consolidar um modelo de educação adequado aos tempos atuais; atendimento precário em saúde para parcelas significativas do nosso povo; debilidade em recursos básicos de infraestrutura; características culturais que são nocivas às posturas mais modernas e progressistas; modelos de governança de pouca eficiência e reduzida eficácia, entre tantas outras restrições. Eleger hoje a minimização destas dificuldades deveria ser nossa prioridade, já que, apesar delas, variados setores desenvolveram-se de forma admirável.

 

Que prioridades deveriam ser consideradas no momento atual?

E no futuro imediato?

Penso que duas prioridades deveriam ser consideradas neste momento (pandemia em alta) e no futuro imediato (o “novo normal”): ciência e fé.  Acredito que, mais do que nunca, a partir de agora, vamos privilegiar decisões primeiramente com base racional; a seguir, com fundamento técnico e, por fim, com critérios científicos. Cada vez mais, vejo que posturas individuais ou coletivas tendem a se guiar pela evidência científica. Experiência prática anterior; conhecimento adquirido; visão intuitiva; percepção em nível macro e, até mesmo, fatores de clara subjetividade continuam tendo sua importância. Mas não são elementos suficientes e sustentáveis diante do vislumbre cientifico das questões. Por outro lado, cada vez mais fica claro que a ciência e a fé não são conflitantes, ou mesmo mutuamente exclusivas. Não há qualquer incompatibilidade entre o tratamento médico dedicado a um paciente e as orações dirigidas a Deus pela cura deste paciente. E esta não é a única fé (motivação religiosa) a que me refiro. Falo da convicção de que teremos tempos mais amenos; destaco a certeza de novos e mais saudáveis padrões de convivência; enfatizo a confiança em crescente bem-estar social; evidencio a convivência com opiniões divergentes ou, até mesmo, assustadoramente polarizadas; acentuo a firme crença na ampliação das interconexões pessoais, ainda que à distância. Em resumo: os fatos científicos constituem referenciais seguros. Mas a disposição pessoal fundada na fé em dias melhores é igualmente crítica.

 

 

 

 

 

 

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