ABQ - Academia Brasileira da Qualidade

A Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, tendo como membros participantes pessoas experientes e de reconhecida competência profissional adquirida ao longo dos anos – nas universidades, nas empresas e em outras organizações privadas ou públicas – em atividades relacionadas à engenharia da qualidade, à gestão da qualidade e à excelência na gestão. A administração da ABQ é realizada por um colegiado eleito entre os membros, de acordo com seu Estatuto.

Publicado em: 03/08/2020
Recuperação do Brasil Pós COVID-19
O importante é extrair lições aprendidas, o que deu certo e o que deu errado

 

 

Acadêmico Basilio V. Dagnino é Bacharel em Ciências Navais e em Ciências Administrativas. ASQ Fellow. Chartered Quality Professional & Fellow, CQI (Londres). Co-fundador do 1º curso nacional de pós-graduação em Qualidade (UCP). Primeiro Gerente Técnico da FNQ (1991 a 1997). Juiz, instrutor e consultor de modelos de excelência do PNQ e de outros prêmios. Ex- Vice-Presidente e Diretor Presidente, e atualmente Membro do Conselho Consultivo da ABQ.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acompanhe a sua entrevista realizada após a 2ª quinzena de julho, à distância.

 

 

Como você percebe os impactos e consequências da Covid-19?

Percebo-os de um lado como sumamente impactantes, sob os mais variados aspectos: social, econômico, técnico/tecnológico, humanitário e gerencial/ administrativo, tanto na esfera privada como pública. Por outro lado, trata-se de uma rara oportunidade para todas as partes interessadas avaliarem profundamente suas consequências, para evitar que numa próxima epidemia, seja nacional ou mundial, que ao que tudo indica virá mais dia menos dia, repitamos os mesmos erros. É uma questão que envolve gestão de risco, gestão do conhecimento, gestão da qualidade, gestão ambiental, enfim qualidade nesses vários campos da gestão. O importante é extrair lições aprendidas, o que deu certo e o que deu errado, não só no Brasil como no Mundo.

 

Aliás, sob esse aspecto identifico no nosso país a falta da aplicação da conhecida ferramenta que é o benchmarking, tanto em nível nacional como internacional. Com base nas mais variadas fontes, é fácil constatar que muitos países, cidades e estados adotaram práticas altamente eficazes para mitigar os efeitos do novo Coronavírus, enquanto outros, principalmente pecando por omissão, enfrentaram uma verdadeira explosão da contaminação e elevados índices de letalidade.

 

O que fazer no curto prazo, afora as medidas já tomadas para atenuar o impacto econômico, empresarial e social?

No Brasil, a desigualdade social em nível regional e individual afetou muito mais pronunciadamente a população de baixa renda. O confinamento e consequente desemprego, tanto formal como informal, teve consequências ainda mais dramáticas para os mais pobres.

 

Uma das principais providências de curto prazo, senão a mais relevante, é atacar os graves problemas vividos atualmente pelos mais atingidos pela desigualdade social. Mesmo nos estados mais ricos e nas grandes metrópoles existem regiões como o Vale da Ribeira no Estado de São Paulo e as perifeiras e favelas (atualmente denominadas eufemisticamente de comunidades) das Cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, verdadeiros bolsões de pobreza, que requerem ações emergenciais, pois essas populações estão ameaçadas na sua sobrevivência.

 

Como a qualidade e a gestão podem ajudar para saída da crise?

Antes de se considerar o como, há que conscientizar os altos níveis governamentais e empresariais, bem como os formadores de opinião, da relevância das boas práticas de gestão no desenvolvimento econômico e social. Somente se as chamadas elites tomarem a iniciativa de entranhar na sociedade como um todo essa mentalidade do bem comum, deixando de lado as ideologias que dividem e não levam a nada, sairemos da crise ao menos no nível em que nela entramos.

 

Sob esse aspecto o papel dos meios de comunicação é crucial. Especialmente a televisão poderia ajudar e muito com seu poder de comunicação para a massa da população. Tanto na transmissão direta da informação, como, a título de exemplo de eficácia comprovada, através do merchandising de ideias sadias até por meio de novelas, programas de auditório etc., seu grau de penetração não pode ser desprezado. Temos gurus premiados internacionalmente na área de propaganda e publicidade, que poderiam desenvolver campanhas para corrigir esse desconhecimento da importância da qualidade e da gestão para as diversas camadas da sociedade.

 

Sempre dizemos que o Brasil é o país do futuro: Isso pode acontecer algum dia? Quando? Como será possível?

Inicialmente acreditando que já avançamos muito, com retrocessos ao longo do tempo. Afinal de contas ser pelo menos a décima economia do mundo não é nada desprezível. As dimensões continentais, se de um lado geograficamente agigantam o país, de outro representam um enorme desafio.

 

Sem dúvida a celebração de um pacto social em que todas as partes interessadas, lideradas por um governo que tenha credibilidade, deixem de lado ideologias e coloquem o bem comum acima de tudo é a primeira pré-condição. Somente dessa forma esse país do futuro se tornará no país do presente.

 

Que ações prioritárias o Governo poderia desenvolver?

A inclusão social, com a definição de metas para indicadores como o índice de Gini, o IDH e outros indicadores da miséria e da pobreza com ações de governo de curto, médio e longo prazo é, sem a menor dúvida, o maior desafio nacional. Regiões como o Norte e o Nordeste têm a imperiosa necessidade de se aproximar continuadamente dos níveis de renda do Sul e Sudeste.

 

No mesmo sentido, a melhoria dos indicadores regionais relacionados com a educação, saúde (inclusive saneamento básico), segurança pública, bem como qualidade da gestão pública estadual e municipal precisam de um choque de gestão (termo tão usado, mas raramente tornado realidade na prática) emergencial.

 

A adoção dos conceitos de cidades inteligentes/ smart cities pelos municípios brasileiros, tanto na prestação de serviços como ao facilitar a participação ativa dos cidadãos nas decisões governamentais, requererá a aplicação de consideráveis somas e amplo programa de treinamento dos servidores públicos. Uma ideia que me ocorre é a formação de parcerias entre os estados (e talvez municípios) considerados mais bem administrados e os mais carentes, para reduzir o gap com base na transferência de práticas administrativas mais efetivas.

 

De forma semelhante, há que promover a aplicação de novas práticas de gestão e a adoção de novas tecnologias nas empresas, notadamente nas MPEs. Dada a imensidão do território nacional, a adoção de programas de educação à distância será indispensável para que esse objetivo seja atingido. Os consideráveis recursos para aplicar, mesmo nas grandes empresas, para poderem ingressar na era da Indústria 4.0, requererão vultosas linhas de financiamento dos bancos de desenvolvimento federais, regionais e estaduais.

 

Que conselho você daria a um jovem que está trabalhando e passa a viver esta situação de crise.

O primeiro é ser resiliente, palavra da moda, algo como ter flexibilidade, não esmorecer na busca de novas oportunidades, não necessariamente na sua atual área de atuação. O segundo é se preparar o melhor possível através de seu aperfeiçoamento profissional, em particular nas novas tecnologias, especialmente as relacionadas com a informação e a comunicação. O terceiro é utilizar sua rede de relacionamento, tanto pessoal como pelas redes sociais, de um lado divulgando suas qualificações, e de outro na busca de oportunidades.

 

Que exercício a ABQ poderia promover para apoiar os tomadores de decisão na definição de políticas e estratégias?

Já se disse que muitas vezes propostas simples são muitas vezes as mais eficazes. Minha sugestão é que a Academia forme GTs para elaborar matrizes FOFA/ SWOT para o Brasil, identificando tanto a nível nacional como setorial Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças. Essa, sem dúvida, seria uma contribuição relevante para o desenvolvimento nacional, que poderia ser usada por diferentes órgãos do governo e pela área privada, para alavancar ações econômicas e sociais prioritárias.

 

 

 

 

 

 

 

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