ABQ - Academia Brasileira da Qualidade

A Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, tendo como membros participantes pessoas experientes e de reconhecida competência profissional adquirida ao longo dos anos – nas universidades, nas empresas e em outras organizações privadas ou públicas – em atividades relacionadas à engenharia da qualidade, à gestão da qualidade e à excelência na gestão. A administração da ABQ é realizada por um colegiado eleito entre os membros, de acordo com seu Estatuto.

Publicado em: 08/08/2020
Recuperação do Brasil Pós COVID-19
O mundo não estava preparado para tamanha turbulência

 

 

Acadêmico Getulio Apolinário Ferreira é Engenheiro Mecânico pela Univale MG, Trabalhou na Usiminas e CST (Arcelor Mittal), Professor da Fundação Percival Farquhar e de cursos de Pós Graduação nas áreas da Gestão pela Qualidade – UFES, UFRN, UNP, FGV e outras. Estágios técnicos na KSC – Japão. Presidente do CEBICT -Centro Bras. De Integração e Cooperação Tecnológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acompanhe a sua entrevista, concedida no inicio de agosto, à distância.

 

 

Como você percebe os impactos e consequências da COVID-19?

O mundo não estava preparado para tamanha turbulência, tampouco o Brasil. Nenhum planejamento poderia prever esta real ameaça que viria a transformar completamente o ambiente de produção, negócios e relacionamentos humanos. Os impactos mostraram que alguns setores da economia revelaram a realidade da sua fragilidade, em especial o da saúde onde se percebeu de forma clara e objetiva que a gestão de investimentos em pesquisa, infraestrutura, recursos humanos, equipamentos e sustentabilidade entre outros já vinham, independentemente da COVID-19, em situação precária e tocada muitas vezes pelo viés politico que mais atrapalha do que ajuda.

 

Indústria Capixaba - No Espírito Santo, pesquisa feita pelo Fórum Capixaba de Petróleo e Gás - FCP&G no mês de Abril, definiu o impacto da Pandemia (COVID-19) no setor de P&G.

 

Constatou-se, naquele momento, que a pandemia do COVID-19 e a queda significativa nos preços do barril de petróleo, consequência do conflito geopolítico entre Rússia e Arábia Saudita, afetaram de forma significativa o setor de petróleo e gás em todo o mundo.

 

No Estado do Espírito Santo, mais especificamente, mensurou-se esse impacto com 199 empresas, por meio de levantamento online realizado já no final de março de 2020.

 

A pesquisa apontou que quase 1 em cada 3 empresas teve quebra de contratos. Além disso, cerca de 33% também já previam descontinuidade em seus negócios.

 

A consequência mais imediata disso está nas vendas: 88% das empresas da amostra, naquela oportunidade, teve queda no faturamento, sendo que 61% dessas empresas teve impacto superior a 20% em suas receitas.

 

Ambiente Brasil - Dados da Revista on line, Isto É Negócios de 30 julho, mostram:

“O país tinha cerca de 2,8 milhões de empresas em funcionamento na segunda quinzena de junho, sendo 62,4% afetadas negativamente pela pandemia em suas atividades. Os efeitos negativos atingiram 62,7% das empresas de pequeno porte, 46,3% das intermediárias e 50,5% das grandes. Metade das empresas em atividade (50,7%) registrou queda nas vendas ou serviços comercializados em decorrência da pandemia. Entre as pequenas empresas, 51,0% registraram perdas. Esse porcentual desceu a 39,1% entre as intermediárias e 32,8% entre as grandes companhias. Das grandes empresas, 41,2% que relataram efeito pequeno ou inexistente da pandemia sobre as vendas”. Os dados são da Pesquisa Pulso Empresa: Impacto da Covid-19 nas Empresas, que integram as Estatísticas Experimentais do IBGE.

 

Em resumo, o cenário é de um ambiente de pós guerra e exige grande esforço, articulação e sinergia para unir empresários, sistema político e academia na busca de saídas vitoriosas.

 

O que fazer no curto prazo, afora as medidas já tomadas, para atenuar o impacto econômico, empresarial e social?

As medidas de curto prazo são apenas remediadoras no sentido de minimizar os efeitos perversos da pandemia. Não vejo outra saída a não ser pela integração de esforços de forma sinérgica das cabeças pensantes de todo o país num eficiente comitê de crise baseado na credibilidade científica e gerencial sem interferência negativa do fator político-partidário para em seguida concretizar o estabelecimento de um PDCA gigante, ou seja, Planejamento de curto, médio e longo prazo, Desenvolvimento controlado de ações eficazes, controle em tempo real com ações “in process” corrigindo desvios e antecipando problemas pela gestão efetiva da situação em todos os setores críticos, fechando com ação nos processos estabelecidos, executados e controlados visando melhorias e ganhos de produtividade.

 

Sob o ponto de vista da retomada do crescimento acredito muito no setor do agronegócio com a continuidade de investimentos em pesquisas e inovação, como já é sabido na atuação da Embrapa, focando no curto prazo os indicadores de desperdício e perdas no processo cujos números são significativos.

 

A geração de empregos e estabilidade social vai depender da recuperação da indústria em todos os setores. A produção, qualidade, inovação e produtividade são fatores de uma mesma linha de resultados.

 

Como a qualidade e a gestão podem ajudar para saída da crise?

Tenho dito que não adianta tanta ênfase na inovação nos últimos anos sem que tenhamos gestão e qualidade para garantir desempenhos, conseguir e assegurar bons relacionamentos comerciais, especialmente no momento de crise que estamos passando.

 

Não podemos deixar de considerar o aprendizado Deming no Japão no pós guerra (anos 50): Recursos para Educação, Treinamento e comprometimento dos líderes das empresas, disciplina na execução dos planos, métodos eficazes no gerenciamento de pessoas, processos e qualidade aos clientes. Humildade para copiar boas empresas e capacidade para melhorar produtos e serviços com intensa participação de grupos pensantes neste novo ambiente tecnológico e dos empregados da linha de frente.

 

Aproveitando apresento um texto do consultor de empresas, Maurício Gois, que segundo ele próprio, muitos dão crédito a Einstein, sobre a CRISE, repensando o momento atual que estamos passando:

 “A crise é a melhor benção que pode acontecer a pessoas e países porque a crise traz progresso, a criatividade nasce da angústia e o dia lindo vem do ventre da tempestade escura. É na crise que surge a invenção, a descoberta, a reflexão e as grandes estratégias do "marketing" do amor. Quem supera a crise, supera a si mesmo, sem ficar superado. E quem pendura no gancho da crise seus fracassos e lamúrias, violenta seu próprio talento e tem mais respeito a problemas que soluções. A crise é uma farsa, a não ser a crise de incompetência, pois o problema de pessoas e países é de autogerência. Sem crises não há desafios, sem desafios, a vida é rotina que chama o túmulo. Sem crise ninguém tem méritos. É só na crise que você mostra que é bom, pois sem crise toda vento é carícia. Por isso, falar da crise é promovê-la e calar na crise é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhe duro, desinflacione a crise de você mesmo e acabe de uma vez com a única crise ameaçadora que é a da tragédia de não saber por onde começar”.

 

Sempre dizemos que o Brasil é o país do futuro: Isso pode acontecer algum dia? Quando? Como será possível?

Aproveito a pergunta para levantar uma curiosidade sobre o tema. Em 1941 foi lançado no Brasil um livro com o título: BRASIL PAÍS DO FUTURO. A obra publicada pela primeira vez naquele ano de 1941 tornou-se rapidamente um clássico. Brasil, um país do futuro é um grande retrato do país sob a ótica de um estrangeiro, Stefan Zweig (escritor austríaco que fugia dos horrores da guerra na Europa) que passou seus últimos anos de vida no Rio de Janeiro. Zweig via um Brasil cordial e acolhedor naquele momento tão complexo e tão violento que se revelava a Europa. Apaixonou-se pelo Brasil e viu possibilidades, ainda que românticas, de um país de grande futuro.

 

 

De lá para cá o Brasil continua sendo o país o futuro dando a impressão de que cada km percorrido, outro km se distancia dando como resultante a sensação de estagnação, ou de nunca chegarmos ao dito futuro (objetivos aferidos por indicadores mais pragmáticos). Segundo Millor Fernandes a frase deveria ser “Brasil país do futuro, sempre!”.

 

Chegar a um futuro auspicioso será necessário lidar com novos métodos e trabalho árduo para vencer desafios em melhoria do nosso IDH, impulsionar e melhorar nosso ranking na área da Educação, melhoria do índice de produtividade da mão de obra, inserção plena no ambiente exponencial da 4ª. Revolução Industrial, redução da carga tributária, e investimentos inteligentes em Ciência, Tecnologia e Inovação. Emprego e renda, entre outros daqueles 17 objetivos de Desenvolvimento do Milênio (nacoesunidas.org).

 

Que conselhos você daria a um jovem que está trabalhando e passa a viver esta situação de crise?

Aos jovens que estão na luta fica a dica da análise atenta quanto as ameaças e oportunidades. O mundo não é apenas um conjunto de erros, crises, guerras, discórdias, fome e miséria. Existe um mundo de possibilidades, em especial no nosso Brasil. Somos um país ainda bebê, com tudo por fazer, com apenas 520 anos da sua descoberta por Cabral (A Cidade Luz, Paris, tem mais de 2.000 anos), ou seja, temos um imenso conjunto de oportunidades reais pela frente.

 

O país, portanto, é muito jovem e tem muita coisa por fazer em todos os campos e setores de atuação. Precisamos de mais ciência e tecnologia nas academias e empresas, agregação de valor no agronegócio, reforma da gestão pública visando produtividade ao cidadão, novas estradas e recuperação das antigas, enfim, talvez tenhamos agora poucos empregos, mas em contrapartida temos muito trabalho a fazer.

 

Empreender parece ser um bom caminho se feito com muita criatividade, planejamento e qualidade na execução. A empresa tradicional migra na velocidade máxima para o futuro através da revolução das novas tecnologias onde florescem startups, inovações disruptivas mudando cenários e alavancando negócios e produtos inovadores no mercado gerando crescimentos empresariais nunca vistos.

 

Por fim (ou começo?) fica um pensamento Anita Roddick, empreendedora britânica do século passado: “Se você faz as coisas bem, faça-as melhor”, ou seja, pratique o Kaizen, o tempo todo e o sucesso virá.

 

 

 

 

 

 

 

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