Adequação do Modelo de Excelência da Gestão
Por Acácia Branca Seco Ferreira*
O mundo corporativo contemporâneo destaca-se pela adoção de modelos de excelência da gestão reconhecidos, construídos ao longo de décadas com base em práticas de organizações de classe mundial. Em que pese essa busca frenética da excelência, tem-se verificado o declínio de empresas aparentemente invencíveis e de excelência reconhecida.
A busca da modernização das empresas nacionais e setores estratégicos visando a aumentar a competitividade dos produtos e serviços do país despertou, na década de 1990, a consciência da qualidade como elemento essencial.
Nessas três últimas décadas, a busca da promoção da mudança cultural nas organizações, priorizando a excelência da gestão e a melhoria da qualidade, levou à adoção de métodos e instrumentos da qualidade na gestão pública e privada. Movimento iniciado, em 1990, com o lançamento do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade – PBQP, que visou, entre outros, à introdução e disseminação da Gestão da Qualidade Total.
A impossibilidade de impor à área empresarial uma gestão baseada na qualidade fez com que o PBQP preconizasse a instituição de prêmios de reconhecimento das contribuições em prol da qualidade e produtividade, sendo criada, já em 1991, uma Fundação voltada ao Prêmio Nacional da Qualidade – PNQ. Adotava-se, no Brasil, a estratégia implantada no Japão, 40 anos antes, quando, em 1951, houve a criação do Prêmio Deming para estimular a adoção de práticas de gestão consolidadas.
O Modelo de Excelência da Gestão, preconizado pela FNQ, hoje em sua 22ª edição, apresenta-se, desde sua criação, como referencial disponível para servir de base ao sistema de gestão de qualquer organização no Brasil. Mostra-se adequado independente do setor ou segmento a que ela pertença, bastando que esteja interessada em obter resultados favoráveis e em desenvolvimento sustentável.
Se, por definição, organizações de classe mundial são organizações consideradas entre as melhores do mundo em gestão organizacional, que adotam os valores e princípios, os quais constituem esse modelo de excelência da gestão, como entender que algumas delas venham a apresentar declínio em sua trajetória?
Não será difícil perceber o liame existente entre o modelo de excelência proposto pelo Prêmio Malcolm Baldrige, que inspirou tantos prêmios – inclusive o Prêmio Europeu – e o clássico “Feitas para Durar” de Collins e Porras (2000). Resultado de uma pesquisa feita com um conjunto de empresas excepcionais, que sobreviveram ao “teste do tempo” – cuja data média de fundação foi 1897 -, e que foram estudadas desde os seus primórdios passando por todas as fases do seu desenvolvimento.
O aprofundamento das pesquisas resultou, anos mais tarde, no best seller Good to great. Empresas feitas para vencer de Collins (2004), no qual destaca a ideia de que o sucesso e o alto desempenho não dependem apenas de fatores externos, mas de decisões intencionais, disciplina e hábitos, que levam a um desempenho sustentável e duradouro. Segundo ele, a excelência não é uma função das circunstâncias. Ela é, em grande parte, uma questão de escolha consciente.
Na primeira década do novo milênio, o governo americano realizou a mais extensa aquisição de ativos privados em mais de sete décadas para impedir uma segunda Grande Depressão. Nesse cenário de intensa turbulência, muitas organizações “gigantes” começaram a cair, colocando à prova o modelo de excelência da gestão que praticavam e que, a princípio, era um guia para obtenção de resultados favoráveis e um desenvolvimento sustentável.
O estudo do declínio corporativo passou assim a ser imperioso e viria a constituir-se num novo best seller de Collins: Como as gigantes caem: e por que algumas empresas jamais desistem. Segundo ele, similar a uma doença, o declínio institucional mostra-se, nos primeiros estágios, mais difícil de detectar, porém mais fácil de contornar; enquanto que, nos estágios posteriores, fica mais fácil de detectar e mais difícil de superar. Collins (2010) observou, ainda, que o fato de uma empresa cair não invalida o que se aprendeu com ela quando estava em sua melhor forma. Portanto, os fundamentos, que extraídos dos clássicos Feitas para Durar e Feitas para Vencer contribuíram ao delineamento de modelos de excelência da gestão, permanecem válidos.
Ao descobrir que está caindo, caberá à organização ater-se a práticas de gestão extremamente disciplinadas. Deve merecer especial e prioritária atenção o processo de formulação de estratégias, que será usado para desenvolver e implementar um plano vencedor voltado à interrupção da trajetória de declínio.
“Este artigo apresenta um resumo de um dos Capítulos do livro QUALIDADE E SOCIEDADE: PERSPECTIVAS, publicado em novembro de 2025.
*Acácia Branca Seco Ferreira é Bacharel em Direito; Graduação em Ciências Contábeis, Administração, Administração Pública e Marketing; Mestrado pela UFMG; Examinadora do PNQ e outros prêmios e Consultora, coordenadora de cursos e professora na área da qualidade.


