Por Eliezer Arantes da Costa*
A virada do século XXI foi marcada por mudanças rápidas, imprevisíveis e disruptivas: A velocidade das transformações tecnológicas, o avanço da inteligência artificial, as crises geopolíticas e climáticas e a hiperconectividade digital criaram um cenário em que as formas tradicionais de planejamento estratégico se tornaram insuficientes.
O que antes era considerado excepcional, tornou-se a norma: colapsos financeiros repentinos, pandemias globais, crises políticas inesperadas, mudanças socioculturais aceleradas, calamidades naturais e eventos climáticos extremos mais frequentes têm moldado o mundo em um ritmo que desafia qualquer tentativa de previsão ou, menos ainda, de controle.
Nesse novo ambiente, deve-se considerar que a tradicional ‘gestão da qualidade’ também está precisando se reposicionar: Não basta, mais, assegurar conformidade ou eficiência: ‘gestão da qualidade’ passa a significar resiliência, capacidade de adaptação e, sobretudo, habilidade de aprender e a agir, antecipadamente, em meio ao inesperado!
Essa percepção tem gerado, ao longo dos últimos anos, vários modelos conceituais, tentando interpretar e administrar a nova complexidade do ambiente externo às empresas e organizações: como bons exemplos, citamos o modelo de mundo VUCA, na década de 1990, que caracterizava o ambiente dos negócios como Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo, e, mais recentemente, em 2020, o modelo de mundo BANI que descrevia o mundo dos negócios como Frágil, Ansioso, Não-Linear e Incompreensível!
De fato, ambos modelos, no seu tempo, ajudaram a compreender os cenários de então, mas, hoje em dia, na virada de 2026, já não mais capturam a dissolução da previsibilidade que vinha caracterizando os momentos que estávamos vivendo.
Assim, o novo modelo de mundo, apelidado de C.H.A.O.S., que está sendo proposto para suceder os modelos de mundo VUCA e BANI, descreve um novo mundo que pode ser caracterizado por cinco dimensões:
C – Caótico, com a perda de padrões previsíveis. Crises financeiras, ambientais ou políticas surgem de forma abrupta, sem sinais prévios e sem ciclos claros.
H – Holográfico, com a hiperconectividade global, em que cada parte contém o todo, onde um evento local pode repercutir globalmente em questão de segundos.
A – Autodestrutivo, onde os avanços carregam, em si, os mecanismos de destruição, como a automação em larga escala, que ameaça empregos, ou a exploração predatória do ambiente, que acelera o colapso climático.
O – Onírico, com a fusão entre realidade e ilusão, com uma fronteira tênue entre realidade e ficção, onde metaverso, fakenews, deepfakes e novas realidades digitais moldam a percepção coletiva, tornando a ‘verdade’ algo fluido e manipulável.
S – Simbiótico, onde há interdependência absoluta entre governos, corporações, indivíduos, máquinas e inteligência artificial, onde nenhum ator isolado consegue responder sozinho aos desafios.
Neste ‘novo mundo’, o do C.H.A.O.S., a pergunta central passa a ser: Como deveríamos planejar, estrategicamente, a gestão da qualidade, em um ambiente de imprevisibilidade absoluta?
O planejamento estratégico clássico, baseado em previsões lineares, lógicas e sequenciais deveria ceder espaço a uma lógica de adaptação contínua. O papel da qualidade, por sua vez, não pode mais restringir-se à conformidade com normas e padrões. Ela deve ser compreendida como capacidade de evoluir em meio ao inesperado, aprendendo e melhorando a cada nova ruptura.
Num ambiente de mundo C.H.A.O.S., a gestão estratégica da qualidade deixa de ser um exercício de planejamento linear e passa a se configurar como uma prática de adaptação contínua.
Essas profundas mudanças mostram que o gestor da qualidade do século XXI precisa ser menos “guardião de normas” e mais líder de adaptação estratégica. Ele deve transitar entre dimensões técnicas e humanas, interpretar cenários caóticos, usar a tecnologia sem ser dominado por ela.
Finalizando, o mundo C.H.A.O.S. não é apenas uma evolução dos mundos VUCA e do BANI, mas a dissolução da previsibilidade como fundamento do planejamento. Nesse ambiente, os novos planejadores da qualidade precisam abandonar a dependência exclusiva de modelos lineares e sequenciais, de causa e efeito, e adotar:
- Aprendizagem contínua, na qual a estratégia deve passar a ser tratada como um processo, não como um plano estático,
- Flexibilidade estrutural, com organizações adaptativas e resilientes,
- Vigilância estratégica, com capacidade de detectar sinais cada vez mais fracos e de agir rápido,
- Integração humano-máquina, com o uso inteligente da IA, sem perder a supervisão e o senso crítico dos humanos,
- Ampla cooperação em redes, tratando qualidade como prática colaborativa em ecossistemas, mais do que recursos de vantagem competitiva.
- Ousadia para pensar o impensável e prever o imprevisível.
Em suma, planejar estrategicamente para a qualidade, no século XXI, será, cada vez mais, o aprender a navegar em situações de rupturas e recomposições contínuas e inesperadas, mantendo-se a capacidade de entregar valor, em meio a colapsos das certezas do passado.
* Eliezer Arantes da Costa é Engenheiro em Eletrônica pelo ITA; Doutor pela UNICAMP; Consultor de empresas em planejamento estratégico e na implantação de sistemas da Qualidade; Atuou na Promon e na Vale do Rio Doce, em pesquisa operacional, e na Promon em sistemas da Qualidade e em planejamento estratégico.



1 Comentários em “GESTÃO ESTRATÉGICA DA QUALIDADE NUM MUNDO C.H.A.O.S.”
Parabéns Eliezer. Artigo próprio ao mundo de hoje, agora!
Leitura obrigatória!