Por Ana Cristina Limongi-França*
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O Conceito de Qualidade versus a Realidade da Sobrecarga
A Qualidade é definida tradicionalmente como o atributo de excelência em atividades, produtos e serviços, para entregar resultados ótimos, padronizados e seguros de que satisfaçam as expectativas dos clientes internos, clientes externos, com fundamentos de ética, bem-estar, sustentabilidade entre outros.
A sobrecarga de trabalho atua na direção oposta a essa excelência. Caracteriza-se pelo acúmulo de entregas, metas incompatíveis com o tempo, pressão contínua e descompasso de competências. Sobrecarga gera adoecimento crônico e impactos negativos que transcendem a pessoa em si, afetando desempenhos, famílias, comunidades e o planeta.
Os avanços tecnológicos, em princípio resultam em ganhos econômicos e estratégicos, e estão relacionados aos fatores psicossociais. O termo divide-se em duas frentes: o Psico (derivado de Psiquê, a busca da alma, o ser interior pleno – e o Social refere-se a tudo que é compartilhado em duplas, pequenos grupos, massas, na camada coletiva. Na atualidade, essa dinâmica se manifesta através do uso intensivo de mídias digitais, plataformas de dados, smartphones e comunicações remotas (síncronas e assíncronas).
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O Impacto da Pandemia e os Riscos Psicossociais
O fenômeno da sobrecarga virtual aumentou com a pandemia da COVID-19. Para garantir a sobrevivência dos negócios e das pessoas, decisões emergenciais foram tomadas globalmente, exigindo o realinhamento do contrato psicológico de trabalho através de engajamento e flexibilidade. Esse cenário complexo consolidou uma nova cultura organizacional, em ambientes de home office, trabalho híbrido e regimes flexíveis. Em grande parte, gerou severas deficiências na harmonização entre a vida pessoal e profissional. Dentre os principais impactos mapeados, destacam-se:
- O impacto do luto e de perdas humanas ainda não totalmente dimensionadas;
- A evidência de desigualdades sociais e a necessidade de políticas afirmativas;
- A urgência por segurança sanitária e psicossocial;
- A mudança drástica na natureza da privacidade e a vulnerabilidade de dados pessoais;
- A monetização de atividades nas redes sociais;
- Tensões de credibilidade envolvendo forças políticas e científicas.
Diante disso, a Gestão da Qualidade apresenta amplo escopo para a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), atuando tanto em competências comportamentais (soft skills) quanto em infraestrutura (hard skills). Hoje, programas de QVT alinham-se a normas de conformidade, como a certificação ISO 45003 (diretrizes para gestão de segurança e saúde ocupacional) e a NR1, que detalha o enfrentamento aos riscos psicossociais. Quando negligenciada, a sobrecarga virtual atua como gatilho para graves transtornos mentais, como a Síndrome de Burnout.
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Dados Científicos sobre o Trabalho Virtual
Realizamos durante a Pandemia Covid-19, através do Núcleo de Estudos e Pesquisas GQVT da FEA/USP, uma pesquisa remota realizada entre maio e dezembro de 2020 com mais de 800 respondentes (majoritariamente professores, sendo 50,2% atuantes em instituições públicas). Os achados evidenciam:
- 66,5% dos participantes perceberam que passaram a trabalhar mais horas no ambiente virtual do que nas antigas atividades presenciais;
- 75,3% relataram uma percepção elevada de excesso de trabalho;
- 71,6% registraram um aumento significativo na carga cognitiva e afetiva;
- 63,5% afirmaram dedicar muito mais horas concomitantes ao trabalho e às obrigações domésticas;
- 92,7% tiveram que utilizar seus próprios equipamentos tecnológicos para trabalhar;
- Apenas 50,4% sentiram-se amparados pela instituição de ensino, apesar de não terem participado da decisão de transição para o remoto.
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Fatores Protetivos e Medidas Preventivas
Para mitigar o estresse negativo (distress), o texto resgata as diretrizes do sociólogo Frank Pot, que propõe o reequilíbrio das políticas organizacionais. As ações preventivas essenciais incluem:
- Compatibilização de Demandas
- Suporte Social e Controle
- Desconexão e Reposição Energética
- Atenção aos Sinais
Essas práticas dialogam com a definição ampliada de saúde da OMS, que contempla o bem-estar biológico, psicológico, social e a cultura local. O comportamento humano nas organizações é moldado por necessidades que precisam ser integradas harmonicamente ao contrato de trabalho, cabendo às lideranças moldarem culturas corporativas éticas e saudáveis.
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Desafios Atuais e Futuros
O futuro da Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho exige conectar a evolução tecnológica — incluindo o uso de Inteligência Artificial para textos e audiovisuais — ao respeito à saúde mental. O combate à sobrecarga virtual depende de lideranças autênticas, humanizadas e humildes, capazes de validar os princípios da excelência por meio de uma produtividade que seja, acima de tudo, saudável, sustentável e inspiradora.
*Ana Cristina Limongi-França é Psicóloga Organizacional e do Trabalho; Ph.D pela USP (Gestão de Recursos Humanos e Gestão de Administração de Pessoal); Aperfeiçoamento na Harvard Business School/CPCL e Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique); Especialização em desenvolvimento empresarial (Vanzolini); Professora, pesquisadora e consultora em Gestão da Qualidade de Vida e Comportamento Humano na Qualidade (Vanzolini e FIA); Na USP é Professora Titular Sênior FEA/EAD – Núcleo de Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho e Pró-Reitora Adjunta; Autora e coautora de quatro livros sobre “Comportamento organizacional”, “Psicologia do Trabalho”, “Stress & Trabalho” e “Qualidade de Vida no Trabalho na Sociedade Pós-industrial”.



2 Comentários de “SOBRECARGA DO TRABALHO VIRTUAL E RISCOS PSICOSSOCIAIS: NOVOS DESAFIOS PARA GESTÃO DA QUALIDADE”
Parabéns Cris. A qualidade tem compromisso com as pessoas. não apenas sob a forma de clientes ou acionistas. As organizações verdadeiras em qualidade têm compromisso com a qualidade. de vida das pessoas e suas equipes. É um valor organizacional .
Parabéns. Artigo adequado e atual. A pesquisa mostra uma falha lamentável dos gestores: Apenas 50,4% sentiram-se amparados pela instituição de ensino, apesar de não terem participado da decisão de transição para o remoto. Na conclusão achei muito interessante a necessidade “de uma produtividade que seja, acima de tudo, saudável, sustentável e inspiradora.” (para a grande maioria dos gestores Produtividade esta relacionada somente entre o que você produz e os recursos que utiliza para produzir, sem nenhuma consideração para com a Qualidade de Vida.