Por Marisa Eboli*
O artigo apresenta os principais resultados da 6ª Pesquisa Nacional de Práticas e Resultados da Educação Corporativa, realizada em 2024 pelo PROGEC/FIA Business School, com a participação de 118 organizações. O foco está nos desafios da formação de competências e na consolidação de uma cultura de qualidade nos Sistemas de Educação Corporativa (SECs), também denominados Universidades Corporativas.
A essência dos SECs permanece a mesma: desenvolver pessoas com base nas competências estratégicas requeridas pelo negócio, desdobradas em competências individuais e traduzidas em soluções educacionais alinhadas à estratégia organizacional. A pesquisa confirma esse princípio ao indicar que 81,4% das organizações estruturam seus SECs a partir do mapeamento de competências estratégicas — um avanço relevante, embora ainda haja espaço para maior maturidade e envolvimento das lideranças nesse processo.
O perfil das organizações respondentes revela predominância de empresas privadas, de capital nacional e de grande porte, com destaque para os setores financeiro, industrial, de serviços, energia e farmacêutico, o que reforça a relevância dos achados para organizações complexas e intensivas em conhecimento.
No que diz respeito ao alinhamento estratégico e cultural, os resultados indicam que 89% dos respondentes reconhecem o SEC como instrumento relevante para a disseminação da cultura organizacional, e 78,8% o veem como indutor de processos de mudança. Entretanto, apenas 61% afirmam que o SEC possui propósito, missão e visão claramente definidos, e somente 56,8% percebem um compromisso consistente das lideranças com a promoção de uma cultura de aprendizagem. Esses dados evidenciam uma lacuna entre o reconhecimento conceitual da educação corporativa e sua efetiva institucionalização.
A conexão entre educação corporativa e mobilidade interna também se mostra limitada: apenas 61,9% identificam esse alinhamento, sinalizando oportunidades para fortalecer o papel do SEC no desenvolvimento de carreiras, na retenção de talentos e na sucessão.
No eixo qualidade, a pesquisa revela elevada valorização da cultura de qualidade (74,6%), da implementação de processos de melhoria contínua (78%) e da gestão eficiente de processos (77,1%). Esses resultados indicam uma abordagem predominantemente prática e aplicada da qualidade, sustentada por processos claros, eficiência operacional e cultura organizacional robusta. Em contrapartida, a mensuração de resultados e abordagens mais amplas, como a Gestão da Qualidade Total (TQM), aparecem com menor prioridade relativa, sugerindo maior foco na ação e na resolução de problemas do que em modelos conceituais tradicionais.
Quanto à integração organizacional, a educação corporativa apresenta forte articulação com a área de Gestão de Pessoas (91,5%) e com as áreas de negócio. No entanto, a integração com áreas estratégicas como Qualidade (52,6%), Inovação (48,3%), TI (50%), Sustentabilidade (44%) e Marketing (39,8%) ainda é moderada, revelando um potencial pouco explorado para ampliar o impacto estratégico dos SECs.
Os achados indicam implicações claras para a atuação da Educação Corporativa: priorizar programas voltados a processos e cultura, fortalecer a conexão entre aprendizagem e indicadores de desempenho, modernizar a abordagem da qualidade — associando-a à inovação, agilidade e competitividade — e ampliar parcerias com áreas transversais.
Sintetizam-se abaixo as principais implicações para Conselhos e Alta Liderança das organizações:
- Governança: assegurar que a Educação Corporativa tenha propósito claro, alinhamento estratégico e patrocínio explícito da alta liderança.
• Liderança: estimular e cobrar o papel ativo das lideranças na promoção da cultura de aprendizagem e qualidade.
• Qualidade e Resultados: conectar programas educacionais a indicadores de desempenho, produtividade e melhoria contínua.
• Integração Estratégica: ampliar parcerias do SEC com áreas-chave (Qualidade, TI, Inovação e Sustentabilidade).
• Visão de Futuro: reposicionar a agenda da qualidade como base para competitividade, inovação e adaptação às transformações digitais.
O desafio agora é transformar a Educação Corporativa em um verdadeiro sistema de gestão da qualidade e das competências, sustentado por liderança ativa, integração organizacional e foco em resultados. Para os Conselhos, investir nessa agenda não é apenas desenvolver pessoas — é proteger a competitividade e a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
Conclui-se que a Educação Corporativa no Brasil é amplamente reconhecida como instrumento estratégico, mas ainda enfrenta desafios relevantes no engajamento das lideranças, no alinhamento cultural e na integração com áreas-chave. Embora a gestão da qualidade não seja um tema novo, ela permanece central para a competitividade, a inovação e a sustentabilidade — e os SECs têm papel decisivo na construção dessa agenda.
*Marisa Eboli é Doutora em Administração pela Faculdade de Economia; Administração e Contabilidade da USP; Especialista em Educação Corporativa; Professora do Mestrado Profissional e Coordenadora da Pós-Graduação em Gestão da Educação Corporativa, na FIA Business School; Atua como consultora e palestrante na área de Educação Corporativa, Educação Executiva e Liderança Educadora; Tem diversos livros publicados sendo o mais recente “Educação Corporativa no Cenário Pós-Pandemia.”


