De Sócrates ao Prompt

(*) Por Claudius D’Artagnan Barros, jan2026

 

O valor da qualidade das perguntas
Um método filosófico clássico e uma prática contemporânea

INTRODUÇÃO

Vivemos em um mundo marcado pelo excesso de notícias, conceitos, conhecimentos, mensagens e pela exigência quase obstinada de respostas rápidas. Paradoxalmente, quanto mais dados estão disponíveis, mais a sensação de sermos atropelados pelo volume de informação ofertada. Ficamos perplexos com a superficialidade que marca o debate nas redes e, por vezes, acabamos frustrados por não conseguirmos gerenciar este universo de informação a que chamamos de big data.

Informações proliferam, mas nem sempre são acompanhadas de clareza, veracidade, profundidade e compreensão genuína do assunto em pauta.

Nesse cenário, torna-se evidente que o principal desafio não está apenas em encontrar respostas corretas, mas, sobretudo, em aprender a formular perguntas de qualidade.

Perguntas bem construídas — objetivas, provocadoras e consistentes — são capazes de conduzir o interlocutor a reflexões mais profundas, acessar conhecimentos latentes e gerar insights relevantes, seja em processos de aprendizagem, tomada de decisão ou mesmo na interação com os sistemas de Inteligência Artificial.

Quando as perguntas são vagas, mal formuladas ou conceitualmente confusas, as respostas tendem a reproduzir esse mesmo padrão, ou seja, tornam-se genéricas, superficiais e, ocasionalmente, equivocadas. A qualidade da resposta, portanto, está diretamente relacionada à qualidade da pergunta que a antecede.

Nesta perspectiva localizam-se duas práticas de naturezas distintas, porém, surpreendentemente convergentes. De um lado, a maiêutica socrática, um método filosófico milenar baseado na dialética e no questionamento reflexivo. De outro, a engenharia de prompts, uma prática recente voltada à formulação estratégica de perguntas e comandos para sistemas generativos de Inteligência Artificial.

Apesar de separadas por mais de dois milênios, ambas as técnicas compartilham um mesmo princípio basilar: aprender a perguntar melhor. Perguntas coerentes, desafiadoras, claras e reflexivas têm o poder de conduzir o interlocutor — seja ele humano ou cibernético — à construção de respostas mais elaboradas, expressivas e aprofundadas em significado.

Não por acaso, a habilidade de formular boas perguntas vem sendo reconhecida como uma das competências mais estratégicas na gestão do conhecimento e no uso inteligente das tecnologias digitais neste mundo contemporâneo.

A DIALÉTICA DE SÓCRATES

Entre os anos de 470 e 399 a.C., na Grécia Antiga, viveu um filósofo ateniense considerado o pai da filosofia ocidental: Sócrates. Figura enigmática e provocativa, deixou poucos legados escritos, mas marcou profundamente a história do pensamento por meio de seu método de diálogo provocador.

Entre os conceitos e filosofias a ele associadas, destaca-se a maiêutica, frequentemente chamada de “maiêutica socrática”, conhecida como um dos pilares do pensamento crítico. O termo vem do grego maieutiké, que significa a arte de partejar [sic].

A metáfora não é casual: assim como uma parteira auxilia no nascimento de um bebê, Sócrates defendia que o conhecimento já existe de forma latente nas pessoas, cabendo ao diálogo provocativo ajudá-lo a emergir ou nascer, como queiram.

Maiêutica significa a arte de desafiar alguém a produzir e externar o próprio conhecimento por meio da multiplicação de perguntas.  Baseia-se na ideia de que o saber não é simplesmente transmitido, mas sim, construído por meio do diálogo e da retórica.

Em outras palavras, consiste em uma sequência inteligentemente estruturada de perguntas que instigam o interlocutor a profundas e valiosas reflexões, questionando suas próprias certezas e, gradualmente, ir construindo compreensões mais significativas e consistentes em torno do seu próprio saber.

Em vez de transmitir respostas prontas, Sócrates estimulava seus interlocutores a explicitação de pressupostos e a descobrirem o entendimento por si próprios, semelhante a um processo de autoaprendizagem.

Para Sócrates, a prática da maiêutica não era um ato passivo de recepção de informações, mas um processo ativo de investigação guiado por perguntas perspicazes e provocativas. Por meio desse método, preconceitos eram desmantelados, ideias frágeis eram confrontadas e novos conceitos ganhavam forma, sendo construídos de maneira mais sólida e duradoura.

PROMPT: UMA PRÁTICA CONTEMPORÂNEA

A engenharia de prompt emerge no contexto do uso de sistemas de Inteligência Artificial, ganhando notoriedade a partir de 2020, com a popularização dos modelos de linguagem. Trata-se do conjunto de práticas voltadas à formulação estratégica de instruções, questionamentos e ambientes capazes de orientar o comportamento desses sistemas, de modo a gerar respostas mais precisas, relevantes e alinhadas aos objetivos e necessidades do usuário.

Diferentemente de comandos genéricos, prompts bem elaborados incorporam intencionalidade, clareza semântica, delimitação de escopo e, muitas vezes, encadeamento lógico, aproximando-se de um verdadeiro processo dialógico entre humano e máquina. A semelhança com os pressupostos da maiêutica socrática, guardada as devidas proporções, não parece mera coincidência.

A CONVERGÊNCIA DA MAIÊUTICA SOCRÁTICA COM A ENGENHARIA DE PROMPT

A relação entre as duas práticas torna-se evidente quando se observa o papel estruturante da pergunta em ambos os casos. Tanto no diálogo filosófico quanto na interação com sistemas de IA, a qualidade da resposta, está diretamente associada à qualidade da formulação da pergunta.

Assim como Sócrates conduzia o pensamento de seus interlocutores por meio de questionamentos cuidadosamente sequenciados, a engenharia de prompt busca orientar o “raciocínio” do modelo de linguagem por meio de instruções progressivas, contextuais e orientadas a objetivos específicos. Nesse sentido, observa-se uma convergência clara quanto aos objetivos de ambos os métodos.

Além disso, há uma afinidade metodológica relevante nas duas práticas. Na maiêutica, o conhecimento emerge ao longo do diálogo, sendo constantemente refinado a partir das respostas obtidas. De modo análogo, a engenharia de prompt raramente se resume a uma única interação; ela envolve ajustes sucessivos, reformulações e aprofundamentos, em um processo que se assemelha a um diálogo investigativo.

Em ambos os casos, o erro, a ambiguidade ou a resposta insatisfatória não encerram o processo, mas servem como insumos para novas perguntas mais hábeis e objetivas.

MAIÊUTICA E PROMPT NO CONTEXTO CORPORATIVO

Nas relações empresariais, a correlação maiêutica e prompt assume importância estratégica. Organizações orientadas por base de dados, pela inovação e aprendizado contínuo dependem cada vez mais da capacidade de seus usuários em formular perguntas inteligentes — seja para interpretar informações complexas, gerenciar grupos de melhoria, conduzir processos decisórios ou mesmo para explorar o potencial da inteligência artificial.

Profissionais que dominam a lógica da pergunta estruturada tendem a extrair melhores resultados das tecnologias emergentes, ao mesmo tempo em que melhoram substancialmente a qualidade das comunicações, o feedback e a resolução de problemas.

MAIÊUTICA E PROMPT EM AMBIENTES EDUCATIVOS

Nos processos pedagógicos e de ensino-aprendizagem, a aproximação entre maiêutica socrática e engenharia de prompt também se mostram particularmente frutíferos.

O uso da IA como apoio à aprendizagem exige que estudantes e educadores desenvolvam competências relacionadas à formulação de perguntas, à análise crítica das respostas e à validação constante do conhecimento produzido. Nesse sentido, a engenharia de prompt pode ser compreendida não apenas como uma habilidade técnica, mas como uma extensão contemporânea da tradição socrática, que valoriza o questionamento como motor de uma aprendizagem de qualidade. Ao correlacionar um método filosófico milenar a uma prática tecnológica contemporânea, evidencia-se que a capacidade de perguntar bem permanece como eixo central na produção do conhecimento, independentemente do enquadramento histórico.

CONCLUSÃO

Ao aproximar a maiêutica socrática da engenharia de prompt, fica evidente que, apesar da distância histórica e tecnológica entre essas práticas, ambas compartilham um mesmo eixo essencial: o poder transformador do questionamento de qualidade.

Entretanto, torna-se indispensável reconhecer o papel central do domínio da linguagem nesse processo. Sem competência linguística e capacidade interpretativa, não há como formular perguntas verdadeiramente inteligentes, tampouco elucidar e criticar adequadamente as respostas obtidas.

Afinal de contas, aprender a fazer perguntas mais elaboradas, claras e precisas, permanece sendo uma das formas mais eficazes de ensinar, decidir e pensar melhor — hoje e, muito provavelmente, no futuro.

 

(*) D’Artagnan é empresário, escritor, membro da Academia Brasileira da Qualidade e ocupa a cadeira #20 da Academia de Letras de Lorena/SP.       Publica vídeos temáticos no Youtube (www.youtube.com.br/Dartabarros)

 

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Ana Clarisse Alencar. Maiêutica: A arte de fazer nascer as ideias.  Uiclaps, 2023.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia. Saraiva, 2013.

GOTTSCHALK, Cristiane Maria Cornelia. Filosofia e educação no mundo contemporâneo. Humanitas, 2016.

CHANG, E. Y.  Prompting Large Language Models With the Socratic Method. IEEE CCWC – 2023

SCHULHOFF, The Prompt Report: A Systematic Survey of Prompting Techs 2024.

BOZKURT, A. Tell Me Your Prompts and I Will Make Them True: The Alchemy of Prompt Engineering and Generative AI. Open Praxis,2024

Os artigos publicados refletem a opinião dos autores e não necessariamente
a da Academia Brasileira da Qualidade.

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4 thoughts on “De Sócrates ao Prompt

  1. Tema super interessante e atual
    A disponibilização do conhecimento através da IA é uma realidade. O nosso grande desafio é saber interagir objetivamente com este recurso para que possamos maximizar os seus benefícios. Daí a importância do tema escolhido. Parabéns professor

  2. Parabéns ao nosso querido mestre Dartagnan. Nesta reflexão apreendeu o cerne da questão, qual seja: o segredo de encontrar respostas corretas é saber, aprender, a formular perguntas de qualidade. A correlação entre a filosofia de Sócrates e o Prompt está muito bem colocada neste artigo.

  3. Excelente texto, realmente saber perguntar é tudo, e a IA está trazendo essa necessidade para todos nós, porque só conseguimos extrair o melhor se soubermos desenvolver prompts claros, específicos, contextuais e estruturados.

  4. A humanidade e seu conhecimento são feitos principalmente por aqueles que já se foram. Por vezes, tomamos variações do mesmo tema como algo totalmente inovador quando na realidade a maioria das inovações, na sua esmagadora maioria, são incrementais. Muito bom o paralelo feito pelo autor entre a maiêutica socrática e o nosso famoso prompt de IA. Lamentavelmente, a baixa qualidade de análise crítica das pessoas baseada em um patético modelo de ensino desenhado por Paulo Freire reflete diretamente nos outcomes das pesquisas da IA.

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