QUALIDADE DE DADOS NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

IMG Livro ABQ 15 anos: QUALIDADE DE DADOS NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Por Paulo Afonso Lopes da Silva*

 

Vivemos uma transformação profunda na sociedade atual, marcada pela crescente presença da Inteligência Artificial nas atividades diárias.  Sistemas inteligentes influenciam, entre outros assuntos, decisões financeiras, diagnósticos médicos e o consumo de informações.

Entretanto, o funcionamento confiável dessas tecnologias depende, principalmente, da qualidade dos dados que as alimentam. Sem dados adequados, mesmo os sistemas mais avançados podem produzir resultados incorretos, injustos ou perigosos.

Por essas razões, a qualidade de dados tornou-se um elemento fundamental para o desenvolvimento responsável da Inteligência Artificial. A era digital apresenta um paradoxo: nunca houve tanta informação disponível, todavia o aumento da quantidade de dados torna mais difícil garantir sua confiabilidade.

Dados de qualidade não são apenas corretos ou completos; eles devem também ser consistentes, atualizados e adequados ao contexto em que se encontram. Na era da Inteligência Artificial, novos critérios tornam-se indispensáveis, como a ausência de tendenciosidades, a transparência das decisões e o respeito à privacidade, bem como a capacidade de adaptação a mudanças rápidas.

Dessa maneira, a qualidade de dados deve ter dimensões técnicas, sociais e éticas. Dados inadequados podem gerar consequências abrangentes, muitas vezes invisíveis. Sistemas treinados com informações incompletas ou distorcidas podem produzir, em larga escala, decisões equivocadas.

Diferentemente dos erros tradicionais, que afetam casos isolados, falhas nos dados de treinamento podem multiplicar-se e influenciar milhões de decisões futuras.

À medida que os sistemas de Inteligência Artificial utilizam volumes cada vez maiores de dados, torna-se mais difícil identificar e corrigir erros, ampliando os riscos associados à má qualidade das informações.

Outro aspecto importante é o papel humano na produção e na interpretação dos dados. Embora, frequentemente, sejam considerados objetivos, os dados refletem escolhas humanas em sua coleta, organização e uso. Por isso, a qualidade de dados depende não apenas de técnicas computacionais, mas também de julgamento crítico e de responsabilidade ética.

Surge, assim, a necessidade de profissionais capazes de realizar a curadoria das informações, selecionando e estruturando dados de forma adequada para o uso em sistemas inteligentes. O futuro da Inteligência Artificial aponta para uma colaboração crescente entre seres humanos e máquinas.

Enquanto os sistemas computacionais são capazes de processar grandes volumes de dados e identificar padrões complexos, os humanos contribuem com interpretação contextual, sensibilidade social e julgamento ético. Essa integração pode levar a decisões mais confiáveis e equilibradas, desde que sustentada por dados de qualidade.

A confiança é o elemento fundamental para que a Inteligência Artificial produza benefícios sociais, confiança que depende da transparência dos processos e da existência de práticas eficazes de governança de dados, que estabelece regras e responsabilidades, permitindo o uso seguro e responsável das informações.

Mais do que um conjunto de procedimentos técnicos, ela requer uma cultura organizacional que valorize a qualidade dos dados como responsabilidade social. O avanço tecnológico, incluindo o desenvolvimento da computação quântica, tende a ampliar ainda mais a importância da qualidade de dados.

Sistemas mais poderosos poderão gerar resultados extraordinários, mas também aumentarão os riscos associados a informações incorretas. Preparar-se para esse futuro implica investir desde agora em práticas sólidas de coleta, tratamento e uso responsável dos dados.

A qualidade de dados constitui o alicerce de uma sociedade digital confiável e justa, e a construção de sistemas de Inteligência Artificial que beneficiem a humanidade depende do cuidado com os dados e do compromisso coletivo com sua qualidade.

 

*Paulo Afonso Lopes da Silva é Engenheiro (IME); Ph.D. pela Florida Tech (USA); CQE, CRE, CQA e Fellow (ASQ); Autor do livro “Probabilidades e Estatística”, em português e em espanhol; Estatístico pela Escola Nacional de Ciências (ENCE); Professor do Instituto Militar de Engenharia (IME); Professor de Qualidade na Universidade de Wisconsin e no FIT, EUA.

Os artigos publicados refletem a opinião dos autores e não necessariamente
a da Academia Brasileira da Qualidade.

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