A QUALIDADE QUE NÃO NOS LEVARÁ AO FUTURO: HORA DE PENSAR DIFERENTE

IMG Livro ABQ 15 anos: A QUALIDADE QUE NÃO NOS LEVARÁ AO FUTURO: HORA DE PENSAR DIFERENTE

Por Evandro Ribeiro*

 

Por muitos anos, a Qualidade foi sinônimo de remover defeitos, controlar variações, padronizar rotinas e garantir conformidade. Esse legado foi (e contínua sendo) essencial: consolidou processos, reduziu desperdícios e fortaleceu a credibilidade de organizações e instituições. O ponto é que aquilo que nos trouxe até aqui pode não ser suficiente para nos levar adiante.

Vivemos um momento de inflexão. Transformações tecnológicas, climáticas, sociais e culturais estão acontecendo em velocidade inédita, tornando o ambiente mais complexo, hiper conectado e imprevisível. Nesse cenário, uma Qualidade centrada apenas em auditorias, certificações e checklists corre o risco de produzir “obsolescência eficiente”: fazer muito bem o que já não responde às novas expectativas da sociedade.

O consumidor contemporâneo não busca somente produtos e serviços “sem defeito”. Ele quer significado e transparência: origem do que consome, impactos ambientais e sociais, trabalho digno, coerência entre discurso e prática. Confiança passa a ser construída menos por selos e mais por comportamento consistente ao longo do tempo. Do outro lado, pessoas que trabalham nas organizações deixaram de aceitar o papel de “recursos” em um organograma. Elas percebem rapidamente quando valores são apenas propaganda e procuram ambientes com bem-estar, aprendizado, escuta ativa e pertencimento.

Por isso, a Qualidade precisa deixar de ser um departamento e tornar-se uma mentalidade compartilhada, uma linguagem comum que atravessa processos, relações e decisões. Trata-se de deslocar o foco da “forma” para o “sentido”, sem desprezar o rigor técnico, mas ampliando seu alcance. Em vez de tratar inovação como apêndice, sustentabilidade como custo, e compliance como burocracia defensiva, passa a ser necessário integrar esses elementos em uma abordagem mais ampla, viva e coerente.

Pensar diferente, aqui, não significa negar o passado; significa honrar o legado e atualizar o repertório. Para além do uso automático do PDCA, propõe-se um novo ciclo orientador: Propósito, Diálogo, Coragem e Ação. Propósito como ponto de partida para escolhas estratégicas; diálogo como base de relações saudáveis e decisões melhores; coragem para desapegar do que não serve mais (inclusive dogmas de gestão); e ação como coerência prática do que se acredita.

Essa transição exige reconhecer que a melhoria contínua, sozinha, já não basta. Em contextos voláteis, por vezes é preciso promover “rupturas simbólicas”: movimentos intencionais que tiram a organização da zona de conforto e a reconectam ao que realmente importa. A Qualidade do futuro está menos nos manuais e mais nas atitudes que sustentam cultura: nas conversas difíceis que não podem ser evitadas; nas decisões que colocam pessoas antes de processos; na disposição de aprender com erros; na cocriação e na aprendizagem orgânica.

A experiência recente de crise global evidenciou isso. Resiliência não se mede por certificados emoldurados, mas pela capacidade de cuidar de pessoas, adaptar-se rápido, improvisar com criatividade e inovar sob restrições. Os modelos de gestão mais inspiradores tendem a integrar qualidade com diversidade, impacto social, regeneração e tecnologias emergentes, substituindo comando e controle por confiança, experimentação e aprendizagem.

A chamada Qualidade Ampla sintetiza essa visão: uma abordagem humana, sistêmica e regenerativa, que busca sentido antes de buscar conformidade. Ela considera a experiência do cliente, as necessidades da organização, os impactos na cadeia de fornecimento e os efeitos sobre a sociedade e futuras gerações. A mensagem central é clara: ter um bom produto não é suficiente; reputação, valores e comportamento ético de toda a cadeia também definem o sucesso organizacional.

Pensar diferente, portanto, é uma escolha estratégica e cultural. É preferir a incerteza da transformação à ilusão da estagnação. É entender a Qualidade não apenas como método, norma ou ferramenta, mas como movimento, ponte e futuro.

 

*Evandro Ribeiro é Diretor de Comunicação da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ), Diretor de Curadoria do FestQuali e Associate Founder do Instituto FestQuali. Atua há mais de 30 anos na promoção da Qualidade, Inovação e Sustentabilidade, com foco em práticas de gestão e transformação organizacional; Consultor e auditor multinormas, é autor da teoria da Ruptura Simbólica e referência no conceito de Qualidade Ampla, que integra governança, cultura, ética e propósito; Vegetariano desde 2001 e guiado por princípios de minimalismo e estoicismo, inspira pessoas e organizações como verdadeiro “assoprador de brasas”, despertando a chama da excelência.

Os artigos publicados refletem a opinião dos autores e não necessariamente
a da Academia Brasileira da Qualidade.

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