A “NOVA QUALIDADE NO SÉCULO XXI”

IMG Livro ABQ 15 anos: A NOVA QUALIDADE NO SÉCULO XXI

Por Eduardo V. C. Guaragna*

O conceito de qualidade tem evoluído sistematicamente ao longo dos últimos 100 anos, sendo fortemente influenciado pelas transformações econômicas, tecnológicas e sociais do mundo. A qualidade nunca foi um conceito estático; ao contrário, ela sempre se adaptou às necessidades e aos desafios de cada período histórico. Inicialmente voltada para a eficiência produtiva e o controle de processos industriais, a qualidade passou gradualmente a incorporar novos elementos, como inovação, satisfação do cliente, sustentabilidade e responsabilidade social. Diante das mudanças profundas do cenário global contemporâneo, propomos o conceito de “Nova Qualidade”, uma abordagem mais ampla que busca integrar desenvolvimento econômico sustentável, prosperidade e bem-estar social.

No início do século XX, durante a Segunda Revolução Industrial, predominava o modelo econômico de capitalismo industrial baseado na produção em massa. Sistemas de organização do trabalho, como o taylorismo e o fordismo, buscavam aumentar a eficiência, padronizar processos e ampliar a produtividade das fábricas. Nesse contexto, a qualidade estava principalmente relacionada à inspeção de produtos e ao controle estatístico do processo produtivo, com o objetivo de evitar defeitos e garantir a uniformidade da produção. Embora esse modelo tenha contribuído para ampliar o acesso da população a diversos bens de consumo, ele também apresentava limitações importantes uma vez que as condições de trabalho nas indústrias demandavam jornadas longas, baixos salários e pouca preocupação com a segurança e o bem-estar dos trabalhadores.

Entre as décadas de 1930 e 1950, o mundo enfrentou crises econômicas e conflitos como a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, houve maior participação do Estado na economia para estimular a recuperação econômica e organizar a produção. Após a guerra, tecnologias inicialmente desenvolvidas para fins militares passaram a ser aplicadas na produção civil, contribuindo para o crescimento industrial. Ao mesmo tempo, começaram a surgir métodos mais estruturados de gestão da qualidade, principalmente no Japão, onde práticas de melhoria contínua foram implementadas e posteriormente reconhecidas mundialmente. Nesse período também houve investimento em políticas de bem-estar social, ampliando o acesso da população a serviços como saúde, educação e moradia.

Entre as décadas de 1950 e 1970 ocorreu um período de forte crescimento econômico em diversas regiões do mundo. O modelo econômico predominante era influenciado pelas ideias keynesianas e pelo fortalecimento do chamado Estado de bem-estar social. Nesse contexto, a produção industrial continuou se expandindo, mas com maior preocupação com a confiabilidade, a durabilidade e a inovação dos produtos. Novos materiais, tecnologias e processos produtivos foram desenvolvidos, contribuindo para o avanço da indústria e para o aumento da competitividade entre empresas. Ao mesmo tempo, houve uma expansão significativa do consumo, acompanhada de melhorias nas condições de vida da população, como aumento do emprego, crescimento dos salários e maior acesso a bens duráveis, como automóveis e eletrodomésticos.

A partir da década de 1970, com a crise do petróleo e o avanço da globalização, consolidou-se um modelo econômico mais liberal, marcado pela abertura de mercados e pelo aumento da competição internacional. Nesse cenário, as empresas passaram a buscar maior eficiência e redução de custos para se manterem competitivas. As normas e padrões internacionais de qualidade ganharam importância como ferramentas para garantir a participação das empresas no mercado global. No Brasil, também foram criadas instituições voltadas para o desenvolvimento da qualidade e da metrologia. Entretanto, mesmo com os avanços tecnológicos, esse período também foi marcado pelo aumento das desigualdades sociais em diversas regiões do mundo.

Entre 1990 e 2010, a globalização e o avanço das tecnologias da informação transformaram profundamente a economia. O desenvolvimento da internet e da comunicação digital possibilitou o surgimento da economia da informação, em que o conhecimento e a inovação passaram a ter papel central. Nesse contexto, a qualidade deixou de se limitar ao produto e passou a envolver fatores como inovação tecnológica, eficiência energética, personalização de serviços e experiência do cliente. No Brasil, programas de qualidade e produtividade incentivaram empresas a modernizar seus processos e a se tornar mais competitivas. Ao mesmo tempo, a tecnologia ampliou o acesso da população à informação e a diversos serviços, melhorando a qualidade de vida, embora também tenha trazido desafios relacionados à privacidade e à segurança digital.

A partir de 2010, com o avanço da economia digital e da chamada Indústria 4.0, a qualidade passou a estar cada vez mais associada à inovação tecnológica, à digitalização e à integração de sistemas inteligentes de produção. Tecnologias como inteligência artificial, automação, análise de dados e conectividade em rede estão transformando profundamente as cadeias produtivas e o mercado de trabalho. Além disso, cresce a importância de práticas empresariais responsáveis, relacionadas à sustentabilidade e à ética organizacional. Nesse contexto, os critérios ESG (Environmental, Social, Governance), que avaliam o desempenho ambiental, social e de governança das organizações, tornaram-se referências importantes para investidores, empresas e governos.

Diante desde cenário e dos desafios atuais, como mudanças climáticas, desigualdade social, tensões geopolíticas, riscos cibernéticos, etc. precisamos ampliar o conceito de qualidade. A Nova Qualidade propõe uma visão mais abrangente e integrada, com base em três dimensões principais: bem-estar, prosperidade e desenvolvimento sustentável. O bem-estar refere-se às condições necessárias para que as pessoas possam viver com saúde, dignidade e acesso ao conhecimento, além de participar plenamente da vida econômica e social. Indicadores como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) são utilizados para medir esses aspectos. A prosperidade, por sua vez, não se limita à acumulação de riqueza material, mas envolve também liberdade, dignidade e oportunidades para que os indivíduos desenvolvam suas capacidades e alcancem seu potencial. Já o desenvolvimento sustentável busca equilibrar crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental, garantindo que as necessidades das gerações atuais sejam atendidas sem comprometer as possibilidades das gerações futuras.

Concluímos que para alcançar esse objetivo é preciso a criação de uma rede colaborativa no Brasil – Rede Nova Qualidade Brasil-voltada à promoção da Nova Qualidade, com o propósito de desenvolver as três dimensões, conectar organizações, compartilhar conhecimentos e disseminar boas práticas. Além disso, é preciso investir na educação, pois é por meio dela que será possível desenvolver competências, formar cidadãos conscientes e promover uma cultura de qualidade orientada para o desenvolvimento sustentável e para a prosperidade e bem-estar da sociedade.

 

*Eduardo V. C. Guaragna Foi Diretor Presidente da ABQ – Gestão 2019-2020 e 2021 e 2022; Engenheiro Mecânico (UFRGS); Mestre em Administração (UFRGS); Engenheiro de equipamentos (Petrobras); CQE, CQA, CRE, CMQ-OE pela ASQ. Onde é Membro Sênior. Especialização em TQC pelo JICA (Japão); Especialização em Gestão; para Sustentabilidade (FDC); Programa de desenvolvimento de lideranças pelo CENEX; Atuação na área de engenharia, projetos, construção e montagem de refinaria e petroquímica; Gerente de qualidade, planejamento estratégico, saúde, segurança, pessoas e meio ambiente da Copesul/Braskem, coordenando o modelo de gestão da Copesul que a levou a conquistar o PNQ de 1997; Ex-Membro do Conselho Diretor no PGQP e do Conselho do Movimento Brasil Competitivo; Voluntário na Fundação Nacional da Qualidade, com 9 ciclos na banca de juízes (2004 a 2012), além de ter participado como avaliador examinador, relator e sênior em algumas edições do PNQ; Autor do livro “Desmistificando o Aprendizado Organizacional: conhecendo e aplicando os conceitos para alcançar a excelência e a competitividade” Editora Qualitymark, 2007.

Os artigos publicados refletem a opinião dos autores e não necessariamente
a da Academia Brasileira da Qualidade.

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