Por Sergio Foguel*
O texto discute o potencial do Movimento pela Qualidade para enfrentar os desafios socioeconômicos-ambientais contemporâneos da humanidade rumo a um futuro sustentável. Surgido no pós-Segunda Guerra Mundial com foco no controle de processos industriais, o movimento ampliou significativamente seu escopo para a melhoria de organizações, políticas públicas e sistemas sociais. A questão central levantada é como esse legado pode ser mobilizado para promover qualidade de vida, sustentabilidade e fortalecimento das instituições globais.
Apoiando-se em evidência de diversos casos de sucesso ao redor do mundo, o autor argumenta que a qualidade, quando aplicada de forma estratégica, colaborativa e orientada por valores, pode ser um poderoso instrumento de transformação social. Ao promover eficiência, inovação e sustentabilidade, o Movimento pela Qualidade tem potencial para contribuir significativamente para o bem-estar da humanidade e para a construção de um futuro mais equilibrado e inclusivo.
Esses casos abrangem melhorias no sistema judiciário, ampliação do acesso à saúde e educação, regeneração ambiental e aprimoramento da governança pública. Destacam também o papel da qualidade no desenvolvimento sustentável, especialmente quando associada a cadeias produtivas regionais e ao turismo que pode promover paz e integração social. Além disso, a crescente relevância da qualidade de dados é enfatizada, sobretudo no contexto da inteligência artificial, cuja eficácia depende diretamente de informações precisas e confiáveis.
A análise dos fatores críticos para o sucesso dessas iniciativas revela a essencialidade da Qualidade em Governança em todos os tipos de organizações: empresas, governos, sociais e instituições multinacionais. E, assim, destaca a importância de um direcionamento estratégico claro, baseado na sinergia entre valores (Yin) e visão de futuro (Yang), que fica realçada marcadamente em ambientes complexos e em constante transformação.
Outro elemento essencial é a co-construção, entendida como a colaboração entre diferentes setores — público, privado e sociedade civil — para alcançar objetivos comuns. A complexidade dos desafios atuais exige essa articulação coletiva, que requer capacidade de liderança para “orquestrar a pluralidade mutante”, ou seja, coordenar múltiplos atores, interesses e contextos dinâmicos.
O texto também realça uma mudança nas concepções sobre o ser humano e o trabalho. Modelos tradicionais, baseados em controle, hierarquia e padronização, vêm sendo substituídos por abordagens que valorizam a autonomia, a confiança, a colaboração e o aprendizado contínuo. Essa transformação cultural é fundamental para que a qualidade se torne um valor incorporado às práticas organizacionais e sociais.
Outro ponto relevante é o avanço das normas de qualidade, que passaram a incorporar princípios de governança e sustentabilidade. Exemplos incluem padrões internacionais aplicados à gestão pública e ao setor produtivo, que contribuem para melhorar a efetividade dos serviços e alinhar práticas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). No Brasil, iniciativas no setor de turismo demonstram como sistemas normativos integrados podem impulsionar o desenvolvimento regional, gerar renda e promover inclusão social.
Os casos brasileiros apresentados reforçam o impacto concreto da qualidade na vida das pessoas. Projetos em diferentes municípios mostram como a aplicação de normas e práticas de gestão pode fortalecer a transparência, a participação cidadã e a continuidade de políticas públicas. Essas experiências evidenciam que a qualidade vai além de aspectos técnicos, contribuindo também para o fortalecimento da democracia e da cidadania ativa.
Apesar dos avanços, o texto aponta desafios importantes. Uma pesquisa recente indica que, embora a sustentabilidade seja valorizada, ainda não está plenamente integrada às operações das organizações, evidenciando que muitos líderes não reconhecem o potencial da gestão da qualidade para esta integração, inclusive visando a produtividade.
Diante desse cenário, o autor defende a necessidade de revitalizar o Movimento pela Qualidade, destacando seu papel estratégico na promoção de um futuro sustentável. Para isso, é fundamental o engajamento das lideranças organizacionais, responsáveis por integrar qualidade e sustentabilidade nos sistemas de governança. Executivos, conselheiros e demais dirigentes devem assumir esse compromisso, garantindo que a voz da qualidade seja efetivamente incorporada às decisões e práticas institucionais.
Síntese do Cap. 16 intitulado “Rumo à Qualidade para a Humanidade” do livro “Qualidade e Sociedade: Perspectivas”, da Academia Brasileira da Qualidade – ABQ, São Paulo, 2025, páginas 153-163, Qualitymark.
*Sergio Foguel é Consultor de líderes e fundadores de organizações em Qualidade de Governança, Cultura, Estratégia e Desenvolvimento Humano e Organizacional; Graduação em Engenharia Civil (UFRS), Mestre em Administração (UCLA), pesquisas em governança (IMD) e em aprendizagem organizacional (HARVARD,
MIT); Membro da IAQ – International Academy for Quality (USA), da Academia Brasileira da Qualidade e dos Conselhos Internacionais da HERITY (Roma) e da Fundação Dom Cabral (Brasil); Chair do IAQ – Quality in Governance Think Tank; Mais de 30 anos como CEO e executivo, inclusive fundador e líder de empresas, institutos e fundações. Foi Presidente do IBQP e cofundador do MBC; Conselheiro de empresas, instituições sociais e entidades governamentais; Extensa atuação em Educação (docência e gestão) e conferencista; Autor e coautor de livros, capítulos e outros textos publicados.


