sábado, maio 28, 2022

O desafio do quarto vetor da sustentabilidade

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Elcio Anibal de Lucca

 

O excesso de informação é um fenômeno global. É imenso o volume de dados acessíveis às pessoas em tempo real e por meio das mais diversas tecnologias. Sonho realizado de muitos autores de ficção científica, a realidade atual representa um grande avanço para a humanidade e para a integração dos povos. Dizer que não há mais como se desligar do que ocorre globalmente, deixou de ser uma figura de linguagem.

Nesse fascinante mundo novo, caracterizado pela velocidade dos fatos e pela massacrante repetição de notícias que mexem com a curiosidade humana, a criação de padrões comportamentais imediatos é quase inevitável e, por conta disso, muitas vezes os parâmetros de conduta são perdidos. As notícias que nos chocam, como o abandono de recém-nascidos, a escravidão de crianças, a pedofilia, o trânsito de veículos na contramão de importantes vias, a impunidade e a crescente corrupção em várias esferas da sociedade, entre tantas outras violências que são banalizadas e permeiam nosso cotidiano, acabam gerando um fascínio pelo mórbido.

A partir disso, outras referências aparecem, desvio de caráter são verificados e invariavelmente geram seguidores. Todo fato repetido inúmeras vezes fica no subconsciente das pessoas e dirige suas ações. É um mal dos tempos modernos. Em outros países não é diferente esta necessidade pelo absurdo, pelo espetáculo, atingindo até mesmo o seguro Japão.

No ambiente virtual, a violência está presente em escala muito maior, franqueada a qualquer faixa etária e, o pior, estimulada e recompensada. Está na hora de todas as pessoas, governos, políticos, estudantes e empresários, particularmente aqueles que exercem algum tipo de liderança, pararem um pouco para fazer uma reflexão sobre que mundo queremos ter em um futuro próximo, e qual herança deixaremos para nossos filhos e netos.

Os esforços direcionados para a sustentabilidade do meio ambiente, das finanças empresariais e das ações de responsabilidade social, devem também se empenhar para a sustentabilidade dos valores. Compreendemos a sustentabilidade como um conceito sistêmico relacionado com a continuidade, com a perpetuação.

Nessa direção, é preciso compreender a importância dos valores em nossa vida. A ética, a moral, o amor ao próximo e a civilidade formam um conjunto de valores que sustentam a razão, a liberdade, a esperança, o respeito, o bom senso e a solidariedade. O grande pródigo da ética, o filósofo alemão Immanuel Kant, apontava que os costumes se pervertem sem o fio do julgamento, sem a consciência moral.

No século XVIII, Kant já apontava os principais valores que regem a sociedade até hoje. Para ele, a busca do princípio supremo da moralidade é que pode garantir ao homem, enquanto ser racional, sua felicidade. Assim, a realização e a convivência humanas estão fundamentadas em valores e estes promovem as condições para a harmonia coletiva.

Os empresários, como agentes sociais mais engajados com a sustentabilidade, nos aspectos do Triple Bottom Line (econômico, meio ambiente e responsabilidade social), devem incluir nesse modelo a sustentabilidade dos valores. As empresas são espaços formadores de opinião e seus procedimentos acabam norteando as atitudes de seus diversos públicos.

As empresas devem ser éticas por excelência e estender e exigir essa filosofia e prática também de suas partes interessadas – governo, fornecedores, acionistas, empregados, clientes e sociedade. A mídia pode aperfeiçoar seus processos em relação a alguns materiais considerados inadequados.

No espaço virtual, deve-se ter especial atenção sobre os conteúdos que estimulam os desvios sociais. Afinal, o objetivo primeiro da internet é a informação, o comércio, a educação e o conhecimento, por isso, não pode se tornar um território gerido por facções criminosas.

Tudo é possível para se direcionar o mundo para o bem ou para o mal. Temos amplos compromissos com as gerações futuras e isso não se restringe à preservação do meio ambiente ou à melhor condição financeira da população.

Há uma obrigação das lideranças empresariais, dos governos, das famílias e dos meios acadêmicos: preparar pessoas melhores para um mundo melhor. A sustentabilidade dos valores é a chave para a perspectiva holística de mundo harmonioso e em paz.

 

Elcio Anibal de Lucca é administrador público e de empresas pela EAESP-FGV, graduado e mestrado, foi presidente do Conselho Curador da FNQ por duas vezes, presidente da Serasa por 20 anos. Atualmente, é presidente do Conselho do MBC, autor do livro Gestão para um Mundo Melhor e membro da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ).

Este artigo expressa a opinião dos Autores e não de suas organizações.

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