terça-feira, setembro 27, 2022

Qualidade da Educação e o mundo das empresas

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*Claudio de Moura Castro

 

Esta nota insiste nos dois aspectos da mesma equação: (i) como está abundantemente demonstrado, educação de qualidade é um dos fatores mais decisivos para a aumentar a produtividade; (ii) sendo assim, empresários e empresas deveriam ter todo o interesse em assumir um papel mais forte para melhorar a qualidade da Educação.

Os números são eloquentes e confiáveis, suportando as ideias acima. Todas as pesquisas mostram o mesmo. Não obstante, preferimos deixar falar os exemplos e casos concretos. Obviamente, foram os que consegui me lembrar. Estão aí apenas para ilustrar a estratégia proposta. Deve haver uma coleção melhor.

Boa educação traz boa produtividade

Cada vez mais, os processos produtivos tornam-se complexos. Observando um torno tradicional, entendemos como funciona. Mas pouco concluímos espiando pela janelinha de um torno CNC em operação. E quando a mão abandona a manivela do torno e vai programá-lo em um teclado, trata-se de um mergulho no pensamento abstrato. E é para esse mundo simbólico que prepara a escola – se o ensino for de boa qualidade. E se não preparar, uma máquina caríssima terá sua produtividade comprometida.

Tradicionalmente, era possível formar, apenas nas oficinas, um operário altamente qualificado. Mas a fábrica de hoje não pode parar para o aprendiz dominar fórmulas matemáticas, compreender textos em inglês ou manuais de instrução. Isso é assunto da escola. E um manual de operações de uma máquina, se entendido errado, pode acarretar prejuízos sérios.

Morreram os bezerros, porque o funcionário deu uma xícara de remédio, em vez de uma colher. Queimou-se a fiação, porque a amperagem do fusível não estava correta. A parede foi erigida no local errado, porque o pedreiro não soube ler a planta. Ou desabou, porque não conseguiu ler qual era o traço do cimento. Quantos metros de fio serão necessários? Quantas latas de tinta? É isso que se aprende na escola. Ou pelo menos, aprendem-se as bases requeridas para tais aprendizados subsequentes. E aprendem-se os valores e hábitos de uma sociedade industrial moderna. E como em setores como construção civil esse aprendizado não acontece, estima-se que 30% do material comprado é inutilizado por erros de execução. Proclamava um irônico proprietário de uma empresa de reparo de motores elétricos: “Amo os eletricistas! Eles não entenderam trifásicos e vivem queimando os motores, mais negócios para minha oficina”.

São exemplos verdadeiros, uns acontecem de vez em quando, outros com lastimável frequência. Mas no fim de contas, o que determina a baixa produtividade é o somatório dos errinhos do cotidiano. A cada momento, alguém está fazendo alguma coisa que faria diferente e melhor se fosse mais educado.

O Brasil, em todos os níveis, tem mão de obra da melhor qualidade. Porém, é pouca. Sendo assim, como é atraída pelas maiores e mais ricas empresas, sobra para as outras, pessoas que nada sabem e pouco conseguem aprender. De fato, o aprendizado mais importante que se adquire na escola é como aprender ao longo da vida. O universitário triplica ou quadruplica seu salário ao longo da vida. Mas não é porque aplica o que aprendeu na escola. A razão é que na escola se preparou para capitalizar sua experiência vivida no trabalho, obtendo assim aumentos de produtividade.

Se a escola é ruim, não forma alunos capazes de crescer com sua experiência de trabalho. E, de fato, a escola é muito fraquinha. Compromete-se assim a produtividade. Portanto, o empresariado teria todo o interesse em lutar pela sua melhoria.

Por que não o faz? Alinhadas abaixo estão ações ao alcance do empresariado para melhorar a educação das escolas no seu entorno.

Boa educação traz boa cidadania

Quando aprendemos a medir alguma coisa, a ciência avança nesta direção. Aprendemos a fazer bons testes de aproveitamento escolar. Isso permite calibrar os avanços dos aprendizados curriculares. É um enorme salto nos esforços de melhorar a escola. Recentemente, começamos a medir os chamados fatores sócio emocionais. Aprendemos que bons hábitos de trabalho, persistência, tranquilidade para comandar e ser comandado e “cabeça aberta” são traços tão importantes no futuro do aluno quanto a sua capacidade de resolver problemas concretos.

Mas isso é vago. Examinemos alguns casos reais.

Estava em uma praia da Oceania uma família inglesa, incluindo a filha de seus doze anos. De repente, o mar começou a ficar esquisito, parecia recuar. A moça bradou, vamos fugir e nos refugiar em um lugar mais alto. Pouquíssimo tempo depois, veio o furioso tsunami, varrendo tudo que havia pela frente. Perguntada por um jornalista como sabia o que era, dando o alarme que salvou a família? Sua resposta foi curta: aprendi na escola.

Algo semelhante aconteceu com um sobrevivente do incêndio da Boate Kiss. Deitou-se no chão e saiu rastejando. Por que fez isso, perguntou o entrevistador? Aprendi na escola.

Faz tempo, apareceu em um ferro velho de Goiânia um aparelho de raio X descartado. Alguém que não foi capaz de ler as advertências escritas no núcleo radioativo, resolveu desmontá-lo. A radiação se revelou fatal para o abelhudo.

Na guerra do Kuwait, engalfinharam-se os tanques americanos com os russos, esses últimos pilotados pelos iraquianos. Os russos eram muito mais simples e fáceis de operar. Os americanos, complicadíssimos, requerendo níveis bem mais elevados de escolaridade e treinamento. Quando confrontados, os tanques americanos usavam sua eletrônica sofisticada para medir a distância entre eles. Manobravam então para sair do alcance dos canhões russos, menos potentes. Mas ficavam suficientemente perto para liquidar o tanque iraniano, com toda segurança.  Foi um massacre, como noticiado pela imprensa. Mas sem a superioridade educacional, os operadores dos tanques americanos nem conseguiriam fazer o motor funcionar.

Nossas cadeias estão sobrecarregadas de gente que, de uma forma ou de outra, colidiu com a lei. E, provavelmente, saem mais propensos a desafiar a lei do que entraram. Mas uma coisa sabemos, quanto mais alto o nível de escolaridade, menos chance de ter encontrões com a justiça. Deve ser bem mais barato educar mais as pessoas do que arcar com o custo da justiça, do encarceramento e de prevenir-se da provável reincidência, ao sair da cadeia.

Na mesma linha, pessoas mais educadas têm um sentido de cidadania mais apurado e tendem a ter um comportamento mais ético.  Os números estão aí para demonstrar.

 

As ferramentas para melhorar a Educação

A agenda de quem está dentro da escola é uma. O empresário que está de fora, tentando melhorar o ensino, cabe que usar outras ferramentas.

Não deve desperdiçar suas possibilidades de acesso a quem opera escolas e secretarias de Educação. O empresariado é uma força política e os administradores públicos sabem disso. Deve usá-la judiciosamente, por exemplo, reclamando de decisões políticas que sacrificam a qualidade do ensino.

Os maiores inimigos da educação são os secretários de obras, pois inaugurações trazem mais dividendos políticos do que tantos pontos no IDEB. Sendo assim, multiplicam-se as manobras, semilegais, para captar dinheiro que iria para a educação. Mas os contadores das empresas facilmente poderiam desvendar esses estratagemas.

No caso de grandes empresas, frequentemente, diretores, secretários e prefeitos recorrem a elas, para financiar isso ou aquilo. É um ótimo momento para condicionar a ajuda a certas providências necessárias, mas politicamente custosas. A Secretaria necessita de todos esses funcionários? Essa pessoa, apaniguada do Prefeito, tem realmente o currículo para a missão que lhe será confiada? Por que tirar de uma escola pobre a melhor professora e transferi-la para uma outra muito menos problemática? Quem pediu?

Diretores de escolas públicas são heróis anônimos, sofrendo as agruras de operar em um ambiente difícil ou até hostil. Não espanta que sua autoestima tenda a ser baixa. Diante disso, empresários podem visitar escolas, convidar a equipe dirigente para almoçar, discutir os problemas e metas da escola ou oferecer ajudas (as financeiras são as menos importantes). Se apenas fizer isso, já dará uma significativa contribuição. Note-se muitas das decisões motivadas por razões políticas não se materializam quando a sociedade fica sabendo. Um secretário lutando para reeleger algum político pensará duas vezes antes de bulir com uma escola cuja diretora almoça sempre com o diretor da fábrica.

Em alguns casos, visitas dos alunos às empresas podem ser uma boa ideia. Para alunos mais modestos, é um mundo novo que se descortina.

Faz já um bom tempo, a IBM americana liderou um movimento para que os departamentos de recrutamento das empresas fossem muito mais explícitos na valorização de altos escores no teste SAT. O mesmo poderia ser aplicado no caso do ENEM. Ou seja, mesmo quem não vai para o superior teria uma boa razão para o esforço necessário para obter bons resultados.

 

*Claudio de Moura Castro é Assessor da Presidência do da Universidade Positivo e Membro da Academia Brasileira da Qualidade.

 

 

 

Este artigo expressa a opinião dos Autores e não de suas organizações.

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