segunda-feira, agosto 08, 2022

Marca “Alemanha” perdeu quase 200 bilhões de dólares após escândalo da VW

Gerd Altmann / Pixabay

B. V. Dagnino

 

Sabemos que problemas éticos são capazes de causar danos irreparáveis às empresas. Sua ampliação atingindo a imagem de um país, entretanto, não parece ser do conhecimento geral. Pois foi exatamente o que aconteceu com o escândalo do mascaramento do nível de poluição ambiental pelos motores Diesel da Volkswagem. Segundo calcula a consultoria britânica especializada Brand Finance, a perda do valor da marca “Alemanha” causada pelo episódio atingiu 191 milhões de dólares.

Com isso, a Alemanha, embora mantendo o terceiro posto mundial, teve o valor de sua marca caindo de 4.357 para 4.166 bilhões de dólares. Os dois primeiros lugares nessa classificação são ocupados pelos EUA e pela China. O Brasil caiu da 10ª para a 11ª posição de 2014 para 2015, atrás ainda de Reino Unido, Japão, França, Índia, Canadá, Itália e Austrália.

A referida empresa calcula ainda o índice denominado brand score, liderado por Cingapura, seguida por Suíça, Emirados Árabes Unidos, Finlândia, Nova Zelândia, Luxemburgo, Qatar e Noruega. O Brasil não aparece entre os dez primeiros.

O presidente da consultoria alvitra que o escândalo anterior, envolvendo a Siemens, parece indicar que não se trata de casos isolados, mas sim de um mal maior (o consultor não cita o caso da Germanwings, subsidiária da Lufthansa, que certamente também abalou a credibilidade germânica).

Logo agora, quando o país estava crescendo no seio da opinião pública mundial com a boa vontade em receber os refugiados sírios e de outras nacionalidades fugitivos de regiões de conflito, ocorre mais um fato que macula a reputação teutônica. Ele acrescenta que o lado positivo é que a chegada desse contingente de gente jovem pode injetar novo ânimo na força de trabalho alemã.

O efeito do problema na imagem de um país conhecido pela eficiência e confiabilidade de sua indústria e por trabalhadores diligentes, honestos e cumpridores da lei é certamente uma surpresa para os não especialistas. Mas, certamente, outros efeitos negativos precisam ser mencionados.

A empresa estimou que somente no final de 2016 todos os motores diesel de 11 milhões de veículos serão corrigidos. Certamente ela se arrepende de ter tentado desenvolver tecnologia própria, rejeitando o sistema inventado pela Mercedes e Bosch, que previa a injeção de ureia na descarga dos gases para manter a emissão poluente em níveis aceitáveis.

Sob o aspecto econômico , o custo da operação é colossal, tendo a empresa reservado 7,3 bilhões de dólares para fazer face às consequências financeiras do problema. Até o Banco de Investimento Europeu (European Investment Bank – EIB) está investigando se parte dos 4,6 bilhões de euros emprestados à VW para desenvolvimento de motores de baixos níveis de emissão foi utilizada no fatídico projeto. As baixas na governança da empresa com a renúncia ou demissão de altos executivos, inclusive a do presidente executivo Marin Winterkorn, certamente também deixaram sua marca.

A gravidade do fato é aumentada pelo fato de que o software que detectava a situação de teste para mascarar os resultados dos testes de emissão começou a ser desenvolvido em 2008. Sua repercussão pode ser evidenciada pelo fato de que o famoso ator Leonardo di Caprio, defensor das causas ecológicas, ter anunciado que produzirá filme sobre o fato.

Uma nova questão foi levantada como resultado dos testes em condições reais conduzidos pela empresa britânica Emission Analytics. Segundo essa fonte, veículos de muitas outras marcas como Mercedes, Honda, Mazda e Mitsubishi, e ainda Renault, Nissan, Hyundai, Citroën, Fiat, Volvo e Jeep, emitem de 2 a até 20 vezes poluentes acima do limite legal.

Conclusão: o sentido do termo Qualidade é ampliado continuamente. Antes significando apenas cumprimento de especificações do produto ou de requisitos do cliente, cada vez mais abrange outras partes interessadas, como a sociedade no caso de gestão ambiental.

Também os aspectos éticos da governança, a gestão de risco, o compliance com leis e regulamentos locais (nos EUA mais rigorosos do que na Europa nesse caso) precisam ser considerados. A continuidade do negócio sob os aspectos econômico, social e ambiental, remete cada vez mais a Qualidade para estar mais próxima da sustentabilidade.

 

B. V. Dagnino é vice presidente da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) e diretor técnico da Qualifactory Consultoria.

Este artigo expressa a opinião dos Autores e não de suas organizações.

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